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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Masque

Ontem o dia estava bonito, até que fez Sol. Mas eu gostei mesmo das nuvens, faziam uns desenhos engraçados em cima da árvore. Uma lá parecia um sorvete, de três bolas creio.
Mas eu não fiz nada de interessante, além de fingir cantar. Porém, mesmo fingindo cantar, eu estava em silêncio. Um silêncio tão profundo, frio. Será que alguém percebeu ? Duvido.



Nossas máscaras são perfeitas, muitas vezes muito perfeitas. E por trás da pele, dos dentes, da barba e do osso, existe uma imensidão de pensamentos, de viagens, tão pessoais e particulares quanto a voz. Atrás dessa máscara é que nos escondemos, nos esquivamos dos olhares e julgamentos alheios. Esses, dependendo de quem venham, são piores que veneno.

Quando é que se conhece realmente uma pessoa nesse mundo ?
Talvez eu não conheça nem a minha mãe como ela de fato é...
Talvez eu não conheça as pessoas com quem vivi os curtos, mas inteiros, 20 anos de minha vida. Se nem eles eu tenho certeza se conheço, quem mais eu poderia conhecer ?

Sartre foi genial. "O inferno são os outros". Sim, o inferno é o outro, mas sem esse outro, o buraco seria mais abaixo. Disso eu tenho certeza, por que a loucura interna pode exceder em muito a loucura externa.
A preocupaçao que tenho com o que vai na mente do resto da gente é enorme. Por que faço as coisas que faço ? Por que não faço as coisas que não faço ? Aí fica difícil. Realmente difícil. E difícil também é evitar a solidão, em alguma qualquer parte do dia. Justamente pelo fato de não se sentir parte de suas próprias ações.

Acordar é um momento deprimente...Convenhamos. E não, não estou ficando louco. Ainda pagarei meus impostos em dia.

domingo, 23 de novembro de 2008

Incômodo a reconhecer

Disseram-me que meus últimos textos têm soado tristes. Não sei por quê, não há razão. De fato, lendo-os novamente sou forçado a concordar. Pensando agora nisso...é claramente mais difícil escrever textos alegres, principalmente sem fazer com pareçam textos de auto-ajuda (exceção feita às comédias, que muitas vezes falam tristezas e nos fazem ficar alegres. Ah...as comédias).
Falar sobre a alegria e sobre a felicidade, sobre como as coisas estão dando certo, soa incrivelmente forçado, às vezes infantil. "Você está fechando os olhos para os problemas!", "a vida não é cor de rosa!". E reconhecer que as coisas vão bem é difícil. Muitas vezes só reconheço que iam bem quando agora vão mal.
Por que será que só reparamos nos erros e consideramos os acertos como naturais ?



Acho que o ponto central se dá em torno das expectativas. Essas são traiçoeiras, povoam minha mente aos montes e me impedem de dormir antes da meia-noite. Assumo que grande parte das minhas expectativas nascem das minhas vontades, sejam elas físicas, psicológicas, químicas, econômicas, sociais, blá blá blá.
As vontades geram expectativas que geram projeções. Se o projetado não ocorrer como tal, vem a decepção, e como ela os textos estranhos.
Agora quando o projetado ocorre como tal passa despercebido. A expectativa, atendida, se esvai com o ato em si. Resta um confortante alívio, que dura o quê...alguns minutos ?
Se a expectativa é negativa, a ponto de se tornar medo, não faço o que tenho vontade. Mas a vontade permanece, me atormenta.

Mas isso é o que faz a vida de um homem ser tão...humana. Uma constante turbulência de expectativas, vontades, projeções, emoções, dúvidas. O problema é que restringimos a maioria dessas sensações, trancamos nossas vontades todos os dias, por medo dos resultados. E são elas que fazem que me sinta bem ou não, à vontade ou inibido. São elas que me realizam como pessoa, como homem.
Portanto, faça aquilo que tem vontade, na medida do possível.
(Não consegui escapar da mensagem de um auto-ajuda cretino, talvez tenha que repensar meus conceitos acerca desse gênero).

Tentarei ser mais solidário comigo mesmo, lembrar do que tem acontecido de bom, reconhecer aquilo que já foi alcançado. Só não prometo escrever...aí já é pedir demais.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fim de festa

Deu 3h. Aos poucos os presentes se retiram. Aqui, só limpeza a fazer. Miles Davis de fundo; penumbra. Sobraram: eu, ela e o cachorro. O pobrezinho estava meio tonto, lambendo a própria genitália, ela me contara que haviam dado de beber ao animal.

"Foi o vinho...", lamentava.

Logo o cachorro se deitou, dava sinais de se entregar aos prazeres do sono pós-vinho. Sobraram: eu e ela. Recolhendo as latas distorcidas e os copos parcialmente inteiros.
Sugeri usar o aspirador para dar cabo dos cacos e das pipocas dispersas no tapete, mas fui de pronto repreendido.

"Não quero barulho.", reiterava.

Ela há tempos desistira da faxina, se ocupava agora de suas unhas, retirando detritos e afins. Olhava furtivamente para minha calça.
Abaixava para recolher a última lata quando o tecido se rompeu na região traseira. Ela desfaleu-se em gargalhadas, por minutos. Não aguentei, tive que acompanhá-la.

"Hahahahahahaha !!!", ria.

Aquela última lata permanecera no tapete. Deitei-me junto a ela no sofá. Minha mão agia sozinha, assim como a dela. Beijos.

"Não aguento mais...não aguento...", murmurava.

Fechou os olhos. Falecera. Segundo os médicos, tinha 6 meses de vida. Se foi na segunda semana. Acordara naquele dia decidida a viver uma noite memorável. E foi.
Sobraram: eu.

"...".

Recolhi a última lata, a faxina estava completa. Cabia agora organizar os trâmites judiciais do falecimento e escolher o modelo do caixão. Ela gostava de cedro.
Deu 5h, já é tarde. Também me retiro.