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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Do estágio e da labuta

Há tempos não escrevo alguma coisa. Queria ter escrito sobre isso ou aquiloutro, mas sempre conseguia arranjar a desculpa de tempo. Aliás, queria escrever sobre a falta de tempo e como isso se torna justificativa para me abster de determinadas coisas.
Queria sim, mas ando meio sem tempo...
Escrevo sobre outra coisa então, mais prática, menos existencialista, ainda que quase-filosófica.

Falemos sobre o trabalho, mas sem nos estendermos muito.
Discursos sobre labuta costumam cair ou numa questão religiosa, ou numa questão utilitarista. A intenção é fugir das duas, mas não boto muita fé no sucesso...

Isso me veio à cabeça e às mãos que digitam no teclado pelo fato óbvio de estar procurando emprego. Ou melhor, estar procurando estágio. Aliás, com as facilidades da informática e com a ampla (até demais, por vezes) difusão das empresas de recursos humanos e consultorias congêneres, basta um clique para se candidatar a uma vaga de estágio e alguns e-mails para acompanhar o processo.
As grandes empresas, dispostas a ajudar os jovens no seu processo de formação, abrem programas de estágios complexos e de amplitude considerável. O cartaz é atraente, nos passa a impressão de crescimento.
"Nossa, agora vai, vou finalmente começar a trabalhar, estou avançando na vida!"
Quase que toscamente, olho para os cartazes esboçando suspiros, fantasiando sobre a futura segunda-feira em que chegarei na empresa, dando bom dia aos demais funcionários e sorrindo.

E nas dinâmicas de grupo, gostamos de parecer adultos, exibindo nossos cursos incompletos e nossas vestimentas sociais emprestadas de nossos pais. Fazemos fala firme, com palavras bonitas, determinadas, que não ficam sem saber a que vieram. Quando um outro candidato se porta de maneira indevida, ou fica um pouco mais nervoso do que permite a situação, seguramos o riso, enrijecendo as bochechas, comemorando por alguém ter feito a besteira antes de nós.
É até um pouco divertido, ver aquele grupo de pessoas (de idade média entre 20 e 21 anos, convém citar) ostentando ares de importância e de maturidade.
Gosto de títulos, apesar de mostrar histórico repúdio a adotá-los. Recentemente, candidatei-me a vagas como "Investment Banking" (IB, ou "aibí", para os mais íntimos), "Asset Management" e "Câmbio/Exchange". São coisas importantes, não? E eu não faço a menor idéia do que querem dizer! (exceto pelo caso do câmbio, que me interessa um pouco mais)

"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois" (Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")

De conversas com outras pessoas, levo exemplos mais concretos. Dois são dignos de citação: Francisco e Ricardo.
Francisco é motorista de caminhão. Conheci há duas semanas, quando contratamos a empresa em que trabalha para transporte de pisos intertravados. Sujeito simples, tinha ar de vivido. Gostava de contar histórias, de quando dirigia o caminhão para empresas importantes e de como era apaixonado por aquela vida de estrada. Durante o pouco contato que tivemos, contou-me algumas de suas empreitadas, com a empolgação de um menino que contava pra seus pais como fora o primeiro dia de escola, mas com a sabedoria de um velho que dava conselhos a seus netos. Tinha fala mansa, pausada, sempre olhando para a estrada; dispensava à maquinaria do veículo um trato suave, quase carinhoso.
Ricardo é vigilante noturno do condomínio em que moro. Todos os dias, vem de ônibus de Pinheiros até Osasco à noite, saindo pela manhã, quase junto com o nascer do Sol. Também é um sujeito simples, de poucas, mas certeiras, palavras. Certa feita nos encontramos no ônibus durante a noite, e ele me contava sobre as coisas por que passava como vigilante noturno.

Ambos, na sua simplicidade, emanavam experiência e sabedoria. Começaram a trabalhar muito cedo. Francisco veio do nordeste com o pai, deixando em casa a promessa de remessa mensal da quantia que conseguissem. Ricardo é paulista mesmo, de sua infância desconheço, mas certamente deve ter sido mais dura que a minha.
Pessoas como Francisco e Ricardo trabalham muito, ou porque gostam ou porque não tem outra opção, mas sempre porque precisam, porque tem bocas a alimentar. Não escolheram estar onde estão, foram levados pelas duras ondas da vida. Não tiveram chance de escolher entre "Investment Banking" ou "Asset Management", tampouco tem diploma universitário.
Aliás, Francisco foi sempre uma surpresa. Na hora de ir embora, lhe ofereci uma cerveja (que de pronto recusou, sob o argumento de estar dirigindo...atitude louvável, quebra de minhas expectativas preconceituosas) e troquei com ele algumas palavras. Era conhecedor do jazz, sonhava em tocar saxofone! Sabia trechos de músicas de Coltrane, de Lester Young, Charlie Parker...Meu Deus, como eu fui preconceituoso...Confirmo a tese de alguns autores que dizem que a classe média tenta atribuir ao jazz o status de música erudita, restrita a poucos.

"O trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível" (Anatole France)

Enfim...posso me alongar demais, ir por caminhos outros que demandariam outras páginas. A propósito, creio ter me desviado do assunto proposto inicialmente. Paro por aqui.
Não quis com essa pequena digressão desqualificar o trabalho dos estagiários, muito pelo contrário (afinal, espero, serei um deles). Nem dizer que a gente letrada não merece o reconhecimento que tem. Há uns que tem oportunidade e há outros que não. E há aqueles que vão atrás da oportunidade, mesmo não a tendo a priori. É assim que sempre foi e é assim que é.
Só digo, e digo sobretudo a mim mesmo, que às vezes é preciso ser mais modesto e humilde quando olhamos para nós em relação aos outros. Ostentar títulos e currículos recheados de cursos e experiências diversas é saudável até certo ponto.
Lembremo-nos que quem constrói os prédios em que estudamos e as pontes por onde passamos com nossos carros recém adquiridos, e quem prepara o café que tomamos enquanto conversamos sobre as mazelas sociais do país não são os candidatos a "Investment Banking" ou "Asset Management", mas sim pessoas simples como Francisco e Ricardo, que podem muito bem entender de Gramsci ou gostar de música barroca.

É importante sim valorizar o que se tem e o que se conseguiu ao longo da vida, mas sem excessos, pois dessa forma corre-se o risco de incorrer na prepotência.
Que eu seja mais humilde e menos preconceituoso.

domingo, 4 de outubro de 2009

O piano de Chopin


                                                                                                         Fryderyk Franciszek Szopen


Chopin, como é conhecido por nós, nasceu na Polônia em março de 1810 e faleceu em Paris, em 1849, aos 39 anos. Acredita-se que a causa tenha sido a tuberculose.

Comecei a ouvir alguma coisa de Chopin há uns 4 anos atrás. Aconteceu que eu passava pelo sebo, onde tinha ido comprar um livro para o vestibular. Como a mulher não dispunha de troco no momento, concordei em comprar um CD por R$5,00. Com um pouco de pressa, escolhi o de Chopin, que trazia alguns noturnos e polonaises na contracapa. Curioso foi o fato de eu nem saber quem era Chopin, nem mesmo sabia que a "Marcha Fúnebre" era de sua autoria. Mas, por alguma razão, escolhi ele e não outro.

Atribui-se a Chopin o título de romântico, no contexto da periodização da história da música. Não tenho gabarito pra discursar a fundo sobre isso, e acho que nem tentaria se tivesse.
Fica aqui apenas a referência e a minha recomendação aos amantes do piano e de toda a sua particularidade. A música que separei é, justamente, uma das presentes no meu primeiro contato com o polaco. Trata-se de seu Noturno No. 13 (Opus 48 No.1) em Dó Menor, interpretado pelo pianista russo Nicolai Luganski.
É um dos noturnos que mais aprecio, definitivamente. Na interpretação de Luganski, ganha o corpo que tem. É ao mesmo tempo paz e caos, dia e noite, serenidade e raiva, nos levando para onde a mente quiser.

Nas palavras do pianista polaco Arthur Rubinstein:
"Chopin era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma "música romântica", no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!"

O piano é como se fosse uma extensão de seu corpo. Reparem nas expressões de Luganski, em como seu corpo reage a cada nota tocada.