sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Do dinheiro e do labor

Subi no ônibus há uns dias atrás e me vi prestando grande atenção à conversa barulhenta entre motorista e cobrador. Nada de mais, tratava-se de um retorno ao lar, após um dia de labuta como outro qualquer. O veículo vazio evidenciava o período de recesso escolar, e o cobrador conversava lado a lado com o motorista, sobre um dos muitos assentos vazios que ali estavam.
Por preguiça de procurar o cartão, me sentei também à frente, anterior à catraca. Me arrependi, no entanto, com rapidez, dados os muitos decibéis com que os funcionários trocavam as palavras.

Falavam sobre o prêmio da Mega Sena da Virada e seus planos individuais para o uso do montante que poderiam ganhar. Na ocasião, devia estar acumulada em 100 milhões de reais, ou algo em torno disso.
Carlos, o motorista, era mais parcimonioso e parecia entender um pouco mais da dinâmica da aplicação financeira. Bruno, o cobrador, era mais espalhafatoso, aventureiro. Dizia que se ganhasse sumiria das redondezas, para que seus conhecidos não mais o fossem. Enquanto me encontrava no limbo entre o sono e o cochilo, anotava no inconsciente as aspirações de cada um, ao mesmo tempo que arquitetava, a um nível não tão inconsciente, meus atos sob a realidade de acordar com alguns muitos milhões em minha conta corrente.

Bruno era sempre o primeiro a falar. Jogava rápida e aleatoriamente as posses que adquiriria se ganhasse. Dizia que só "ia andar de máquina", que iria comprar uma fazenda e construir uma mansão, que iria pescar com seu barco. Curiosamente, dizia que viveria também somente do "juro". Estava em seus planos, ademais, comprar a SPTrans.
Carlos era econômico nas palavras, ouvia Bruno com paciência e balbuciava alguns sons, como se concordasse com o exposto pelo colega. Em alguns momentos refutava, explicando as dificuldades que Bruno enfrentaria caso passasse a controlar a empresa de transporte.
Não demorou muito a chegarmos no meu destino. Ainda relutante, procurei o bilhete na mochila e me arrastei até a porta de saída. O limbo em que me encontrava já começara a se definir, mas a hora pedia outra postura. Desci do veículo e tomei meu rumo.



É bastante interessante o que pensamos quando tomamos por dado que o dinheiro não é mais um fim em si, e sim um meio, uma fonte pseudo-infinita de bens materiais, disponível e pronta a ser usada. O trabalho, parte integrante, quase que indissociável, de nosso cotidiano, parece perder o sentido diante de tantos zeros na conta bancária.
Afinal de contas, por que trabalhamos? Qual a nossa relação com o ambiente de trabalho, com a empresa, com seus funcionários e com nossas responsabilidades?
A maioria trabalha por que precisa, por que prescinde do dinheiro para pagar as contas de sua residência, para garantir as condições básicas para sua sobrevivência. Todos temos planos, objetivos, vontades e sonhos. O dinheiro estará sempre lá, muitas vezes como fator limitante, como bem escasso, variável de decisão sempre presente. Se compramos ou não algo hoje é porque temos planos para o dinheiro em algum instante do tempo. A ciência econômica é clara nesse ponto. O dinheiro tem valor no tempo, seja teoricamente ou perceptivamente. Mas que valor teria se acordasse com 170 milhões em conta na manhã seguinte? Não seria tão absurdo pensar em não aparecer no trabalho. O chefe já não assustaria tanto.

Fico imaginando como deve ser se deparar com uma rotina- antes tão absoluta, tão onipotente- que não é mais necessária. Como deve ser optar por não ir trabalhar?
Enquanto uns dizem que a Mega Sena seria a solução para seus problemas, os casos noticiados pelos telejornais apresentam episódios de cobiça, vingança e inveja.

Penso que os 170 milhões não caberiam no site do banco. Ligaria para o Help Desk:
"Bom dia senhor, em que posso ajudar?"
"Bom dia. Os dígitos do meu saldo em conta ultrapassam as 10 casas, está aparecendo só R$ 170.000. Poderia verificar, por favor?"
"Senhor, só um instante, vou contatar o suporte técnico"
(Musiquinha do hold...)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ainda recordo

O que dizer da ausência?

Francamente, não tenho muito o que dizer, pois há dias atrás nem recordava possuir um blog, com textos de minha autoria, assinados em baixo, ainda que na crua forma da fonte maquinada. A fonte aliás, passou a ser objeto de observação quando naveguei por blogs que costumava navegar, por textos que costumava comentar. A Courier é a que mais agrada. A Verdana, pode ser.
Periodicamente clicava na quase totalidade dos "Escritos Interessantes" e deixava lá minha marca. Como uma conversa informal, comunicávamo-nos regularmente, opinando sobre os textos alheios.

De súbito, caí nesta página uma vez mais.
Acerca de Algo.
De súbito lembrei que escrevia há tempos atrás acerca de coisas que pensava e que julgava interessantes, que gostava de colocar em palavras. Gostava de escrever, de testar habilidade e o trato com essas células da linguagem.

E de súbito percebi que gosto de ler o que escrevi, gosto de lembrar o sentimento de quando escrevi, de a quem direcionava determinado texto, determinada frase.

Ficar meses sem escrever e reler aquilo que se escreve, de mais meses atrás, ou ainda de anos atrás, pode ser extremamente confortante, extremamente aliviante. Vê-se que o tempo que passou foi cronologicamente desprezível no curso de uma vida, mas psicologicamente muito relevante. Mudamos mais do que imaginamos. Progredimos mais do que acreditávamos poder progredir. Aprendemos mais do que julgavamos poder conseguir aprender. O tempo passa de fato depressa, mas a vida parece passar mais rapidamente.

O calendário nos dá uma ideia do quanto vivemos e do quanto nos falta para chegar a algum lugar. A dimensão numérica do tempo pode ser perversa, torturante em certa medida. Não podemos deixar que ela nos atrapalhe a enxergar o que está por trás de suas denominações gregorianas.

Digo então, da ausência, coisas boas. Um obrigado deve servir. Com ela, e com o arquivo de minhas palavras e pensamentos aqui registrados, pude perceber questões e querelas que não conseguiria de outra forma.

Manterei assim esta branca página, tal como se iniciou. Acerca de Algo. Algo indefinido, aleatório, tal como o caminho que percorremos todos as manhãs.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Revisionismo

Muito tempo se passou. 13 de junho ficou para trás, assim como o costume e a facilidade que tinha para escrever textos e publicá-los aqui, neste blog. O que me motivava a escrever certamente não me motiva hoje, apesar de não conseguir descrever com êxito a natureza daquela motivação.
Tenho para mim que atingia antes um certo número regular de leitores. Em certo sentido escrevia para eles, sobre coisas que consolidei e rotulei como "qualquer coisa", tal como consta no subtítulo desta página.
Entretanto, (creio que) em função de um longo período sem acesso à internet, sinto em mim algum desapego por hábitos que mantinha num tempo passado, não muito distante do atual em termos cronológicos, mas distante, sim, e substancialmente, em termos psicológicos.

Essa distinção se torna visível quando leio o que escrevi no passado. É possível diferenciar as fases e, inclusive, a forma como escrevia, escancarada pelo emprego de determinadas preposições e expressões, ao longo da existência do blog. Em termos de conteúdo a variação também foi significativa: ora escrevia crônicas com impressões pitorescas de situações cotidianas, ora digredia acerca de características pessoais minhas que julgava passíveis de descrição e análise. Raramente falei de política ou de economia, área a mim bastante particular. Na falta de assunto, justificava escrevendo as razões por trás da falta de assunto. E assim, de forma meio capenga, meio patética, mantive até cessar a escrita.

Tendo esse pensamento em vista, não deixo de surpreender-me com o fato do número de seguidores ter aumentado apesar da visível inatividade, evidente nos arquivos. Poderia atribuir o incremento numérico a questões de prestígio que certamente existem na rede, tais como ser seguidor de uma quantidade expressiva de blogs. Mas não.
Pode ser que esteja enganado e agindo ingenuamente, mas prefiro acreditar que a qualidade do que está aqui escrito seja o fator determinante. Ponho-me assim diante de uma dúvida, adoçada com certa dose de desafio: vale a pena voltar a praticar o exercício da escrita, nem que se trate de "uma tentativa frustrada de escrever sobre qualquer coisa"?

Sinto que se aceitar a proposta, o blog sofrerá mudanças, relativas a coisas com as quais já não me identifico mais. No limite, servirá como um exercício de composição de sentido através do léxico, onde o que se escreverá ser sempre acerca de algo. Vago e disperso como o próprio título indica.

domingo, 13 de junho de 2010

Definição

Como de costume, há muito tempo não escrevo aqui. A frequência de minha escrita parece reduzir-se exponencialmente, de tal sorte que não me surpreenderia se só voltasse a escrever em algum domingo de setembro, nono mês de nosso calendário gregoriano.
Lembrando a mim mesmo de que estamos no sexto mês - colocar as coisas em termos numéricos pode ser de grande valia quando o que se quer é causar algum impacto.

Em verdade, já não tenho mais clara a definição do que este blog atualmente é. Talvez nunca tenha sido nada per se, um modismo, um pretenso objeto de qualificação egoística. Algo como "oh, sim, eu escrevo".
O leitor logicamente sabe não tratar-se de nada disso, creio. Eu também devo, apesar do cansativo apelo vitimista, reconhecer que o blog tem sim uma importância que não deve ser desprezada. Uma grande importância eu diria.

E de que decorre essa recente perda de clareza, de sentido? Ao me fazer essa pergunta, se torna inevitável a analogia a outros aspectos da vida. Coisas corriqueiras como o ato de acordar, de adentrar a algum veículo de transporte público, de almoçar num canto qualquer...
Estou cá na metade da graduação, no início de um estágio, às vésperas de uma mudança de residência. O que tinha de ser está sendo. O caminho que visualizava no passado está se concretizando no presente. Sem dúvidas, isso é ótimo!
Entretanto, não consigo deixar de matutar o por quê de minha imagem no espelho estar mais embaçada do que a de tempos passados. Saber a razão de fazer o que faço sempre me deu sustentação para olhar à frente, e não para os lados, para trás ou para baixo. Mudanças de rotina costumam trazer tais reflexões à tona. A percepção de que vivo uma "vida nova" carrega consigo alguma angústia.

Recentes encontros com pessoas novas tem chamado minha atenção para essa questão. Saber quem eu sou é fundamental para ser quem eu quero ser, para fazer o que eu quero fazer, para chegar aonde pretendo chegar. E essa certeza, esse enraizamento, deve partir de dentro do indivíduo, para depois voltar a ele sob a forma de resultado, de conquistas concretas.
É comum atrelarmos nossa condição a condição dos outros. É comum atribuirmos a outras pessoas, a fatores externos a nós, as razões para sermos o que somos e o que podemos ser. Devemos grande parte disso ao comodismo, ao vitimismo, ao medo.

Em meio a lanches, cafés e bolinhos com açúcar e canela, numa conversa despretenciosa, mas objetiva, vi que aquela definição de vida e certeza que tinha anos atrás estavam mais perto de mim do que imaginava. Como se as tivesse guardado nos bolsos, subitamente as redescobri.
"Acorde pra vida! Não seja um 'quase'!"- dizia a mãe, como se chacoalhasse cada um de nós.
Palavras simples e objetivas, sem meias voltas, sem enrolação. Palavras tão simples que por pouco não me despertaram a noção de que as havia perdido.

As responsabilidades ao longo da vida crescem em número e em natureza. Se tornam mais complexas, com implicações mais pesadas, mais hostis. Poucos são os que não se confundem em algum momento de suas vidas, seja essa confusão grande ou pequena. Mas temos os meios para nos encontrarmos novamente, para tomar a direção de nossas vontades, de nossas ambições, e dar-lhes corpo, concretude.
Todos temos ambições, em maior ou menor grau, saudáveis ou dotadas de certa dose de sociopatia. As saudáveis devemos, sim, buscar. Faremos, dessa forma, melhor de nossas vidas e, consequentemente, melhor à vida dos que nos rodeiam.

Resmunguei acima algo como "percepção de uma 'vida nova'". Pensando melhor, prefiro uma outra percepção, a de que não se trata de uma "vida nova", mas sim de um degrau de uma mesma vida, um momento de uma trajetória maior, parte de mim, que sempre carregarei.
Me livro assim, em certa medida, da coisa do "recomeço", do "apagar o antigo", da periodização. Ora, grande besteira. Jamais podemos apagar o que fizemos. A vida, enquanto estivermos aqui, é uma só. Vamos, portanto, fazer dela o melhor que pudermos e enquanto pudermos.
Tenho os meios e os motivos para fazer de minha estadia aqui algo grande e proveitoso. Mãos à obra!

Como diria o grego Sócrates, "conheça-te a ti mesmo".

terça-feira, 30 de março de 2010

Acabou o show

Terminou na semana passada o julgamento do casal Nardoni (sim, meus caros, mais sobre isso). A sentença deferida pelo júri impôs a Alexandre Nardoni cerca de 30 anos de prisão, enquanto a outra ficou com algo em torno de 26 anos.

Ao longo da semana, muitos clamavam pela justiça, pela imparcial justiça que levaria ao ostracismo social um homem que, segundo afirmam, jogou uma criança indefesa pela janela, de uma altura consideralvelmente suficiente para levá-la ao óbito.
Eu pareço discordar da sentença, não? Pois digo que não discordo, mas tampouco concordo.
Afinal de contas, quem sou eu para julgar outro homem, que não tem absolutamente nada a ver comigo, um completo desconhecido, por um ato ainda menos conhecido e compreendido, tendo por base somente a saraivada de informações que me é "oferecida"?

Desculpe-me o leitor convicto de que a justiça foi feita - e que muito provavelmente tenha sido feita.
E não me ache de todo insensível, pois a foto da menina sorrindo também me desperta comoção.
Mas não posso deixar de expressar o que toda essa situação representa para mim.

Artificialidade.

Para além da justiça dos homens, que não me cabe aqui julgar, tudo, absolutamente tudo, me parecia artificial. Foi uma semana inteira de "casal Nardoni" nas manchetes dos jornais, nos enfadonhos programas tipo "Brasil Urgente", nos fatigantes programas vespertinos de variedades, nas revistas semanais de notícias, nos programas de entrevista, nos plantões, nas esquinas, nas mesas dos restaurantes, nos pontos de ônibus...
Acompanhava-se o dia-a-dia dos que se propuseram a presenciar o julgamento, às frentes do Fórum de Santana, como se fossem missionários da paz ou coisa parecida. Objetivamente, o que leva um sujeito que mora, a título de exemplo, em Minas Gerais, vir acampar às portas do purgatório? O que leva outros, estranhos à família e chegados da garota falecida, a pagarem de seus próprios bolsos por banners, faixas e camisetas?
Exceção feita aos estudantes de direito e categorias congêneres, os outros pareciam estar apenas festejando, celebrando algo que lhes disseram ser da maneira que acreditam.

"Por que você decidiu acompanhar de perto o caso?", pergunta a jornalista cuja face não aparece.
"Me familiarizei com a mãe, afinal todas somos um pouco mães", responde fulana.
"Me solidarizei com a família. Não podemos ficar parados diante dessa barbaridade", responde ciclana.
"Acho importante a manifestação aqui, precisamos chamar a atenção das pessoas", responde beltrano.

No dia do julgamento, a movimentação era grande, a raiva estampada no rosto dos que ficaram de fora do recinto. Alguns levaram fogos de artifício, afinal de contas, era preciso fazer barulho, cantar a vitória, estourar a garrafa de espumante.
Os telejornais transmitiram na íntegra as palavras do promotor, que com todo o seu juridiquês, encantou os ouvidos das famílias que acompanhavam o caso, grudadas da tela do aparelho. Queriam ouvir palavra por palavra, ter certeza de que os monstros seriam mesmo presos, que seriam julgados e condenados.

"É culpado! Eu sabia!", bradaram diversos pais e mães e avôs e avós e tios e tias e filhos e filhas espalhados pela cidade. Acordariam todos no dia seguinte, prontos a comentar com seus pares o sentenciado na noite anterior. E dormiriam todos na noite seguinte, a maioria já esquecera o casal Nardoni.

Artificialidade.
Artificialidade e superficialidade.
Artificialidade, superficialidade e espetáculo.



É assim que a mim se resume a situação. Parece essa a raison d'être desses casos nos tempos de hoje.
Mesmo sabendo que o casal não cumprirá nem um terço da sentença, fica no ar o sentimento de que a polícia fez seu trabalho, de que a justiça brasileira funciona, de que o país não está perdido.
Se a justiça, de fato, foi feita ou não, não faz diferença. O importante é acharmos que sim, dadas as peças que nos deram e a história que construíram.

Se o ceticismo está aqui exacerbado, é porque reluto em acreditar que os efeitos serão duradouros. É como se, para os poderes envolvidos, tais casos fossem ração, reabastecedores da confiança da opinião pública. À imprensa, agradecemos pela excelente cobertura e pela preocupação com a justiça. Às autoridades policiais, agradecemos pelo impecável trabalho de apreensão e pelas imagens dos acusados sendo lançados sem dó aos fundos da caminhonete, algemados e incapazes de ação. E finalmente, ao Judiciário, pela rapidez na resolução do caso e pela lucidez e visão ilibada dos jurados e dos envolvidos.
O sujeito oculto, deliberadamente empregado, fala por si só. Quem é o nós?

Lembremo-nos dos milhares de casos que acontecem periodicamente em São Paulo. E que, diferentemente do caso Isabela Nardoni, ficam sem solução. Caem no esquecimento, na podridão dos arquivos rotos das delegacias de polícia. Se diluíssemos o empenho e a vontade política, bem como a mobilização popular, entre esses milhares de casos, talvez as coisas fossem, ainda que um pouco, diferentes.

"No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso."
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo

terça-feira, 23 de março de 2010

Nós e os fatos

Os fatos, seus relatos e suas versões são hoje abundantes. Não sei o que dizem os jornalistas, quando atiram seus dados estatísticos, a fim de comprovar a sua versão dos fatos, através de relatos pretenciosamente imparciais. Talvez afirmem que o número de assaltos que ocorrem todos os dias na capital seja da ordem das centenas, ou que os homicídios atinjam a casa das dezenas.
Quando da época das enchentes, por exemplo, falava-se em milhares de desabrigados, uns poucos mortos e outros tantos desaparecidos.
O desastre do Haiti no início do ano ilustra bem a questão. Muito provavelmente, o terromoto fora notícia na esmagadora maioria - senão na totalidade - dos jornais espalhados pelo mundo. Passa-se um tempo e a coisa arrefece, naturalmente. Afinal, a notícia se renova, novos jornais são impressos e novos tapes são rodados. Todos os dias somos brindados com informação fresca, recém-escrita. Se é importante ou não, deixe a cargo do editor-chefe. Fato é que é notícia, fato é que é fato.

A imprensa, em sua função precípua de informar, cria em determinados momentos, e talvez essa criação seja involuntária, bolhas de aparências. Atribui-se importância a esta ou aquela questão, em forma e intensidade variadas, num caráter quase cíclico.
Ora o que está na pauta são os escândalos em Brasília, ora é o trânsito, ora é o planejamento urbano, ora é a segurança pública.
E vai-se dessa forma absorvendo os fatos, seus relatos e suas versões, acostumando-se à premissa de que as coisas são como são.

Logo, os fatos vão se tornando simplesmente fatos, descolados da realidade em que, por definição, também estamos inseridos. É estranho pensar que casos de assassinato possam ocorrer na rua de casa, ou que perseguições policiais se deem na rua da padaria, onde vamos pegar o pão do café da manhã. E é mais estranho ainda pensar que pode ocorrer com nós mesmos, na segurança e privacidade de nossas casas.
Diante da televisão, reage-se pouco energicamente a um assassinato triplo. Em caso presencial, entretanto, o quadro muda de tal forma que já nos assustamos consideravelmente com uma briga entre poucos num bar qualquer. E por que isso acontece?
Numa região como São Paulo, de cerca de vinte milhões de habitantes, a chance de ocorrer algo é, em termos probabilísticos, bastante pequena. Mesmo considerando as discrepantes diferenças socioeconômicas, é difícil associar o que se ouve nos jornais com a própria realidade.
E esse aparente descolamento entre a realidade e o resumo jornalístico cria essa casca, esse abrigo, onde o mundo lá fora é horrível, perdido.

Não se trata de mudar o mundo, ou de adotar uma postura universalista, de querer ajudar todos de uma vez só. Muito pelo contrário, a postura de mudança vem à tona quase que somente quando sentimos na própria pele o que ouvimos nas manchetes.
Ter a propriedade ameaçada, a privacidade invadida ou a vida posta a fio são catalizadores da constatação de que algo precisa mudar, de que algo não está certo. E, posteriormente, quando recorremos às instituições que, por excelência, deveriam nos proteger dos "desvios do padrão social", o descaso e a burocratização mostram que, sim, existem. A revolta é, por extensão, automática.

Estamos longe de estar imunes ao que vemos nos jornais. Mas é preferível considerar-se como tal, até o que dia em que se prove à força o contrário.
Como lidar com isso? Aceitamos e aprendemos a com isso conviver? Tratamos como factual e recorrente, tal como os relatos jornalísticos? Como "coisas da cidade grande"?
A resposta não é de todo pronta, nem de fácil elaboração. Mas o que é certo que todos temos que continuar vivendo, de uma forma ou de outra.

terça-feira, 2 de março de 2010

A águia e sua renovação

Se antes falava do calor canino, hoje falo do frio simpático. Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o clima. Ora chateiam-se com a sudorese excessiva, ora com o ar resfriado. Eu, pessoalmente, prefiro o frio do jeito que está.
Hoje  o post é sobre a águia, mas sem cientificismos ou pretensões realistas. Há controvérsias em relação à antiga história de que a águia passa por um processo de troca de bico, unhas e penas, por volta dos 40 anos. Não obstante, se encararmos o relato como uma parábola, podemos nele encontrar certa inspiração, e terminar a leitura com o esboço de um sorriso.





"A águia é uma ave que chega viver até 70 anos. Mas, para chegar a essa idade, ela tem de tomar uma séria e difícil decisão por volta dos 40 anos. Nessa idade, ela está com as unhas compridas e flexíveis, não conseguindo mais caçar suas presas para se alimentar. Seu bico alongado e pontiagudo já está curvo; suas asas estão apertando contra o peito, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas: e voar já está se tornando uma tarefa difícil! 
Então, a águia só tem duas alternativas: morrer...ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias.Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e recolher-se em um ninho próximo a um paredão, onde ela não necessite voar.
Após encostar esse lugar, a águia começa a bater com o bico contra a rocha até conseguir arrancá-lo. Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E somente depois de cinco meses ela sai para seu famoso vôo de renovação. E poderá viver, então, por mais uns trinta anos.
Em nossa vida, muitas vezes, temos de nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação. Para que continuemos a voar um vôo de vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes e outras tradições que nos causam dor. Somente quando nos livramos do peso do passado é que podemos aproveitar o resultado valioso que uma auto-renovação sempre traz."
- Compilado de diversos autores -

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O árduo retorno

Os termômetros tem registrado temperaturas demasiadamente altas nos últimos tempos. Feliz está a indústria de ventiladores, aparelhos de ar condicionado e das águas engarrafadas. Não nos esqueçamos, sobretudo, da indústria de bloqueadores solares, tão difundidos nessa época do ano. A propósito, segundo os dermatologistas, eu deveria aplicar um pequena quantidade do fator 30 antes de escrever diante do monitor. Ora, que chatice.

Já estamos em fins de fevereiro, mas este é meu primeiro post do ano. O exato porquê desconheço, mas as palavras e a iniciativa para escrever tem me faltado, o que se reflete na frequência quase inexistente com que tenho escrito nesse blog. Assuntos não me faltam, as experiências durante o período de férias não foram de toda escassas, tendo sido bastante ricas inclusive. O que antes era fluído parece agora travar ao querer sair, até cansar, forçando-me a apagar tudo o que quase nada havia escrito.
Mas indagar internamente sobre as causas da rara escrita não levam a muita coisa. O melhor mesmo é colocar as palavras no papel, da forma como elas surgem na cabeça, quase instantâneas. E assim, naturalmente forçadas, elas vão formando as frases. Umas com mais sentido, outras com menos.

Vamos ao fato de que o período de ócio acabou. Há implicações importantes aqui.
Reconheço que tardou o fim a vir, mas é de desconsenso nacional que é depois das festividades carnavalescas que o Brasil acontece, ao menos para alguns (pois para outros talvez ele nunca aconteça).
Recorrente tema em minhas singelas digressões, a pendular relação entre ócio e labor é sempre fonte de reflexões acerca do passado e do futuro. Organizamos a agenda mental; revemos objetivos não alcançados e os traçamos novamente; definimos novas prioridades; nos adaptamos a novas realidades, a novos horários, a novos lugares a frequentar. Nos posicionamos de prontidão frente ao novo período, ao novo calendário numérico.
Revisitando lembranças, transmutando-as em fotografias, momentos perfeitos, congelados no tempo, tiro forças para encarar uma vez mais o outro sentido do pêndulo, na sede da certeza de o caminho é o correto. Embora não saiba claramente o destino que me aguarda, sei que devo seguí-lo de alguma forma. Alguma coisa vai sair!

Mas deixando o blá-blá-blá existencialista de lado, podemos certamente dizer que 2010 será um ano interessante. Teremos eleições presidenciais por aqui! E poderemos saudar uma vez mais o espetáculo da democracia! Por profunda falta de vontade de discursar a fundo sobre algumas matérias desse início de ano - e que decerto merecem ser destacadas -, separei algumas curiosidades, a fim de alimentar nosso repertório de tópicos de cultura inútil.

1 - Para a ONU é o ano internacional da biodiversidade. No Brasil, é o ano nacional de Joaquim Nabuco (comemora-se o centenário de seu nascimento).
2 - Teremos quatro eclipses: uma solar em 15 de janeiro (a de maior duração no século 21), uma lunar parcial em 26 de junho, uma solar total em 11 de julho (só no hemisfério sul) e uma lunar total em 21 de dezembro.
3 - É um ano considerado comum, já que fevereiro só terá 28 dias.
4 – No Brasil teremos um novo censo (finalmente!).
5 - Para aqueles que adoram um feriado, teremos alguns que poderão ser emendados: Corpus Christi em uma quinta, 3/6; três caindo em uma terça-feira: independência em 7/9, Nossa Senhora em 12/10 e finados em 2/11. A Paixão de Cristo em 2/4 cai em uma sexta, Tiradentes (21/4) numa quarta e proclamação da república (15/11) em uma segunda-feira. O dia do trabalho e o Natal cairão em um sábado.
6 - Maitê Proença, Aécio Neves, Felipe Camargo, Antonio Banderas, Sean Penn, Gilberto Kassab, Hugh Grant, Carla Camurati, Jean-Claude Van Damme e Tato Gabus Mendes completarão 50 anos de idade.
7 - O Brasil chorará os 40 anos da perda de Oscarito, um dos maiores comediantes que atuaram no cinema nacional; a França lembrará os 40 anos da morte de Charles De Gaulle, o presidente que tirou o país de uma guerra nos anos 40 e colocou em outra nos anos 60 e o mundo lembrará os 40 anos do passamento de Jimmy Hendrix, o maior guitarrista de rock de todos os tempos.
8 - No ano de 2010 nós saberíamos para que serviam os monolitos surgidos em 2001 na obra de Arthur C. Clarke, 2010 – o ano que faremos contato. Já no filme Absolom, 2010 é o ano em que um poderoso vírus se alastra matando metade da população mundial e é quando acontece a migração dos alienígenas que vivem no Distrito 9.
9 - Se tudo der certo, tanto São Paulo quanto o Rio ganharão novas linhas de metrô, João Pessoa anunciará a construção de um arranha-céus de 52 andares e ainda na terra da garoa o trecho sul do rodoanel estará pronto.
10 - Celebra-se o 200º aniversário do nascimento de Fryderyk Chopin. Os eventos multiplicam-se por todo o mundo. Esperam-se assim excelentes concertos e belos espectáculos.
11 - Homens fortes competem no campenato mundial de carregamenteo de esposas da Finlândia. O vencedor recebe o equivalente em peso da mulher em cerveja.
12 - A Alemanha celebra 20 anos desde a unificação.

O texto, curto e pobre em conteúdo, é nada mais que uma tentativa de voltar a escrever. O retorno tem sido árduo, de fato, mas não será impossível. Em breve volto com assuntos mais interessantes, sem "encher linguiça" com curiosidades de tal ordem.
Vejamos se o retorno ao labor anula os efeitos obscuros do ócio.

"Sentirei sua falta em minhas tardes..."

sábado, 19 de dezembro de 2009

Summa cum Laude

Não escrevo nestas páginas há muito tempo. É verdade, estive um tanto ausente. Mas deixemos os arrependimentos e os choramingos de lado. Abster-me-ei, portanto, das introduções maçantes, ainda que a contragosto.






"Com a maior das honras" é a tradução da expressão latina que dá nome a esse texto. É essa a honraria que expressa o reconhecimento por obter a mais alta qualificação possível em uma titulação acadêmica. Seu uso não é muito difundido por estas terras, ficando restrito ao círculo anglo-saxão da humanidade.
Lembro-me de quando ganhava o "Parabéns" da professora do ensino fundamental. O esforço não era de todo desgastante, bastava caprichar um pouco na letra, evitar as rasuras...convinha também o truque da maçã e da política do bom samaritano, a fim de mostrar maturidade precoce.
Na universidade, entretanto, os métodos escusos de promoção intelectual parecem ter seu escopo de ação duramente limitado.

O reconhecimento vem.
De fato.
Mas apenas àqueles que realmente o fazem por merecer.

"Summa cum Laude" é algo que não terei no diploma, em absoluto.
Talvez, quem saiba, por obra do destino, ou de algum mal-entendido proposital, saia com alguma singela honraria. Mas duvido que, se vier, venha em latim. Oh, que pena...
A questão central, já um tanto batida, convenhamos, se dá em torno da responsabilidade inerente ao fato de estar numa universidade pública. Não pelo fato de todos pagarmos os impostos que sustentam o funcionamento da instituição (afinal, pagamos também os garis que limpam as ruas, mas a responsabilidade por jogarmos lixo em vias públicas parece ser bem menor, senão quase inexistente), mas pelo fato de haver uma fila enorme de indivíduos potencialmente melhores e pelo próprio papel da Universidade na sociedade.
(Agora, se eu entrei e eles não é ponto para outra discussão. O vestibular não tem como critério a responsabilidade e o comprometimento com a melhoria da Universidade Pública. Ele é do jeito que é, conteudísta e técnico. E não estou fazendo juízo de valor, nem dizendo que tenho coisa melhor a propor.)

Veja...Vivenciar o ambiente da Academia deveria ser um dos períodos mais frutíferos da vida de um jovem que se propõe a estudar a ciência, em suas diferentes vertentes. Poder trocar idéias com os docentes é algo maravilhoso. São todos doutores, muitos obtiveram o título em instituições européias e norte-americanas.
O ambiente acadêmico não deveria ser então efervescente?! Vivo?! Numa constante ebulição de novo conhecimento e de discussão dos problemas mundanos e soluções para esses problemas?!
Ahn...talvez no plano dos idealistas essa coisa toda funcione.
Assim como o "Summa cum Laude" parece cada vez mais distante do meu diploma, a Academia tal como descrita acima parece cada vez mais irreal. De antemão digo que essa é a minha experiência, no âmbito específico da faculdade em que estudo e do curso que faço. Nâo se trata de uma digressão a nível macro.

Tem-se de um lado, uma grande maioria de estudantes (excluem-se alguns poucos que realmente fazem jus ao título, por diversas razões) cuja preocupação principal é conseguir a aprovação nas disciplinas que se propuseram a cursar. A escolha destas, ademais, é baseada no critério da "aprovabilidade" e do quanto ela pode contribuir para a manutenção de uma média ponderada em níveis não vergonhosos. Poucos são os que cursam uma disciplina única e simplesmente em função do interesse despertado pelo programa.

Do outro lado, tem-se um grande número de docentes cuja preocupação principal é a manutenção e expansão de sua produção científica. Prezam, também, pela boa reputação no Departamento e pela estabilidade do vínculo empregatício com a instituição. Nesse sentido, mostram pouco interesse e motivação para com a graduação, "facilitando" o acesso do aluno à disciplina que leciona.

Firma-se então o chamado "pacto da mediocridade", onde o aluno, sob o manto da "aprovabilidade" e da manutenção de sua média ponderada em níveis pífios, aceita e adota uma postura conivente com um docente que dá uma aula de baixa qualidade, com um baixo nível de exigência.
A fim de facilitar a vida, ambos firmam o pacto informal, de modo a prosseguir com as demais atividades do dia-a-dia de forma tranquila.
Ora, isso é lamentável, sem dúvida. Entretanto, pouco se faz para mudar esse quadro, o custo seria alto demais.

É comum ver a gente discursar sobre a qualidade do ensino no país, da pouca vontade política do governo em adotar políticas educacionais mais sólidas...mas poucos olham para o próprio quintal.
Uma vez mais, me enquadro em minhas próprias críticas, mas pouco ajo no sentido de buscar soluções.
Aproveito para expressar meus votos de estima aos que merecem o "Summa cum Laude" em seus diplomas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Preze

Tenho tido pouco do que reclamar. À parte assuntos de importância menor, minha vida tem sido bastante acertada. A família é consideravelmente unida, a faculdade é boa, o dinheiro não é problema crítico... Diferentemente de outras pessoas que tenho conhecido ultimamente, as coisas tem sido fáceis para mim.
Claro, o tempo parece não sobrar, mal dando conta de cumprir as atividades por mim - e para mim - propostas a priori. Mas isso também é decorrente do amplo leque e da abundância de atividades que posso fazer parte.
As notas podem não estar tão azuis quanto gostaria, assim como o esforço por mim desempenhado está aquém do acredito poder oferecer. Mas fica para outros escritos a desilusão com as obrigações e sucessos da trajetória acadêmica.

Enfim, num geral, as coisas vão muito bem.

Não costumo tomar partido da postura otimista com frequência. Raras são as vezes que faço prevalecer o positivo sobre o negativo. Mas recentes conhecimentos e palavras tem evidenciado um pouco a forma como valorava as coisas dessa vida há uns tempos atrás.
Acostumei-me com as salas de ar condicionado, com os veículos novos e com a comida por kilo. Havia esquecido a atmosfera que envolvia um hospital e a proximidade da morte, a simplicidade de um pedreiro, a importância de um prato de comida, o abraço de uma mãe...
Dar valor ao que temos é fácil no discurso. Na ação é preciso sinceridade, integridade. É preciso ser menos egoísta, ceder em certas situações. É preciso presentear, seja qual for a forma do presente. É preciso usar isso para crescer, para fazer mais e melhor. É preciso se colocar no lugar do outro.

O reconhecimento de que há de se atribuir valor a aquilo que consideramos importante tem me acometido com maior intensidade nos últimos tempos.

Devo isso, em grande parte, a você, menina artista, mãe das minhas flores de papel.
A você, que parece me curar de todos os sentimentos ruins.
A você, detentora de uma alegria indescritível, de uma energia contagiante.
A você, que me olha com seu olhar penetrante; e que ri ao esboço de uma careta minha.
A você, que me acalma com um abraço e me abranda a turbulenta espiral de pensamentos da mente.
A você, ladra dos meus sonhos e da minha mente nas horas vagas.
A você, que merece mais valor do que acredito poder dar.


A você, menina linda dos cabelos escuros e da pele clara, do toque suave e do sorriso iluminado, um sincero e alegre obrigado por fazer parte da minha vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Do estágio e da labuta

Há tempos não escrevo alguma coisa. Queria ter escrito sobre isso ou aquiloutro, mas sempre conseguia arranjar a desculpa de tempo. Aliás, queria escrever sobre a falta de tempo e como isso se torna justificativa para me abster de determinadas coisas.
Queria sim, mas ando meio sem tempo...
Escrevo sobre outra coisa então, mais prática, menos existencialista, ainda que quase-filosófica.

Falemos sobre o trabalho, mas sem nos estendermos muito.
Discursos sobre labuta costumam cair ou numa questão religiosa, ou numa questão utilitarista. A intenção é fugir das duas, mas não boto muita fé no sucesso...

Isso me veio à cabeça e às mãos que digitam no teclado pelo fato óbvio de estar procurando emprego. Ou melhor, estar procurando estágio. Aliás, com as facilidades da informática e com a ampla (até demais, por vezes) difusão das empresas de recursos humanos e consultorias congêneres, basta um clique para se candidatar a uma vaga de estágio e alguns e-mails para acompanhar o processo.
As grandes empresas, dispostas a ajudar os jovens no seu processo de formação, abrem programas de estágios complexos e de amplitude considerável. O cartaz é atraente, nos passa a impressão de crescimento.
"Nossa, agora vai, vou finalmente começar a trabalhar, estou avançando na vida!"
Quase que toscamente, olho para os cartazes esboçando suspiros, fantasiando sobre a futura segunda-feira em que chegarei na empresa, dando bom dia aos demais funcionários e sorrindo.

E nas dinâmicas de grupo, gostamos de parecer adultos, exibindo nossos cursos incompletos e nossas vestimentas sociais emprestadas de nossos pais. Fazemos fala firme, com palavras bonitas, determinadas, que não ficam sem saber a que vieram. Quando um outro candidato se porta de maneira indevida, ou fica um pouco mais nervoso do que permite a situação, seguramos o riso, enrijecendo as bochechas, comemorando por alguém ter feito a besteira antes de nós.
É até um pouco divertido, ver aquele grupo de pessoas (de idade média entre 20 e 21 anos, convém citar) ostentando ares de importância e de maturidade.
Gosto de títulos, apesar de mostrar histórico repúdio a adotá-los. Recentemente, candidatei-me a vagas como "Investment Banking" (IB, ou "aibí", para os mais íntimos), "Asset Management" e "Câmbio/Exchange". São coisas importantes, não? E eu não faço a menor idéia do que querem dizer! (exceto pelo caso do câmbio, que me interessa um pouco mais)

"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois" (Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")

De conversas com outras pessoas, levo exemplos mais concretos. Dois são dignos de citação: Francisco e Ricardo.
Francisco é motorista de caminhão. Conheci há duas semanas, quando contratamos a empresa em que trabalha para transporte de pisos intertravados. Sujeito simples, tinha ar de vivido. Gostava de contar histórias, de quando dirigia o caminhão para empresas importantes e de como era apaixonado por aquela vida de estrada. Durante o pouco contato que tivemos, contou-me algumas de suas empreitadas, com a empolgação de um menino que contava pra seus pais como fora o primeiro dia de escola, mas com a sabedoria de um velho que dava conselhos a seus netos. Tinha fala mansa, pausada, sempre olhando para a estrada; dispensava à maquinaria do veículo um trato suave, quase carinhoso.
Ricardo é vigilante noturno do condomínio em que moro. Todos os dias, vem de ônibus de Pinheiros até Osasco à noite, saindo pela manhã, quase junto com o nascer do Sol. Também é um sujeito simples, de poucas, mas certeiras, palavras. Certa feita nos encontramos no ônibus durante a noite, e ele me contava sobre as coisas por que passava como vigilante noturno.

Ambos, na sua simplicidade, emanavam experiência e sabedoria. Começaram a trabalhar muito cedo. Francisco veio do nordeste com o pai, deixando em casa a promessa de remessa mensal da quantia que conseguissem. Ricardo é paulista mesmo, de sua infância desconheço, mas certamente deve ter sido mais dura que a minha.
Pessoas como Francisco e Ricardo trabalham muito, ou porque gostam ou porque não tem outra opção, mas sempre porque precisam, porque tem bocas a alimentar. Não escolheram estar onde estão, foram levados pelas duras ondas da vida. Não tiveram chance de escolher entre "Investment Banking" ou "Asset Management", tampouco tem diploma universitário.
Aliás, Francisco foi sempre uma surpresa. Na hora de ir embora, lhe ofereci uma cerveja (que de pronto recusou, sob o argumento de estar dirigindo...atitude louvável, quebra de minhas expectativas preconceituosas) e troquei com ele algumas palavras. Era conhecedor do jazz, sonhava em tocar saxofone! Sabia trechos de músicas de Coltrane, de Lester Young, Charlie Parker...Meu Deus, como eu fui preconceituoso...Confirmo a tese de alguns autores que dizem que a classe média tenta atribuir ao jazz o status de música erudita, restrita a poucos.

"O trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível" (Anatole France)

Enfim...posso me alongar demais, ir por caminhos outros que demandariam outras páginas. A propósito, creio ter me desviado do assunto proposto inicialmente. Paro por aqui.
Não quis com essa pequena digressão desqualificar o trabalho dos estagiários, muito pelo contrário (afinal, espero, serei um deles). Nem dizer que a gente letrada não merece o reconhecimento que tem. Há uns que tem oportunidade e há outros que não. E há aqueles que vão atrás da oportunidade, mesmo não a tendo a priori. É assim que sempre foi e é assim que é.
Só digo, e digo sobretudo a mim mesmo, que às vezes é preciso ser mais modesto e humilde quando olhamos para nós em relação aos outros. Ostentar títulos e currículos recheados de cursos e experiências diversas é saudável até certo ponto.
Lembremo-nos que quem constrói os prédios em que estudamos e as pontes por onde passamos com nossos carros recém adquiridos, e quem prepara o café que tomamos enquanto conversamos sobre as mazelas sociais do país não são os candidatos a "Investment Banking" ou "Asset Management", mas sim pessoas simples como Francisco e Ricardo, que podem muito bem entender de Gramsci ou gostar de música barroca.

É importante sim valorizar o que se tem e o que se conseguiu ao longo da vida, mas sem excessos, pois dessa forma corre-se o risco de incorrer na prepotência.
Que eu seja mais humilde e menos preconceituoso.

domingo, 4 de outubro de 2009

O piano de Chopin


                                                                                                         Fryderyk Franciszek Szopen


Chopin, como é conhecido por nós, nasceu na Polônia em março de 1810 e faleceu em Paris, em 1849, aos 39 anos. Acredita-se que a causa tenha sido a tuberculose.

Comecei a ouvir alguma coisa de Chopin há uns 4 anos atrás. Aconteceu que eu passava pelo sebo, onde tinha ido comprar um livro para o vestibular. Como a mulher não dispunha de troco no momento, concordei em comprar um CD por R$5,00. Com um pouco de pressa, escolhi o de Chopin, que trazia alguns noturnos e polonaises na contracapa. Curioso foi o fato de eu nem saber quem era Chopin, nem mesmo sabia que a "Marcha Fúnebre" era de sua autoria. Mas, por alguma razão, escolhi ele e não outro.

Atribui-se a Chopin o título de romântico, no contexto da periodização da história da música. Não tenho gabarito pra discursar a fundo sobre isso, e acho que nem tentaria se tivesse.
Fica aqui apenas a referência e a minha recomendação aos amantes do piano e de toda a sua particularidade. A música que separei é, justamente, uma das presentes no meu primeiro contato com o polaco. Trata-se de seu Noturno No. 13 (Opus 48 No.1) em Dó Menor, interpretado pelo pianista russo Nicolai Luganski.
É um dos noturnos que mais aprecio, definitivamente. Na interpretação de Luganski, ganha o corpo que tem. É ao mesmo tempo paz e caos, dia e noite, serenidade e raiva, nos levando para onde a mente quiser.

Nas palavras do pianista polaco Arthur Rubinstein:
"Chopin era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma "música romântica", no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!"

O piano é como se fosse uma extensão de seu corpo. Reparem nas expressões de Luganski, em como seu corpo reage a cada nota tocada.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Você é linda"

Hoje é dia 23.
E quem fala por mim é Caetano.




Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol
A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás


Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer


Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal


Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz



Você é linda.
Simples assim.

sábado, 12 de setembro de 2009

Pra quê?

Estive pensando em como fico abatido por pouco. Não se trata de uma questão da simples dicotomia entre alegria e tristeza, mas sim de um abatimento mais amplo, extra-pessoal.
Percebo isso em outras pessoas também. Algo como uma perda momentânea da vontade de viver.
Muitas vezes decorrente de causas tolas, poucas vezes de causas realmente relevantes.

A reflexão veio do que conversava com minha mãe dias atrás. Tomando o costumeiro café da tarde- que na ocasião acompanhou uma farta oferta de bolo de fubá- acabamos, em meio a comentários acerca da chuva torrencial da terça-feira última, estacionando no assunto citado no parágrafo anterior.
Ela me contava como havia ficado uma amiga sua após a morte de seu marido. Companheiros de longos anos, eram conhecidos de minha mãe da escola em que lecionavam. Após breve discurso das frustrações que envolvem a rotina de um professor, minha mãe me descrevia como estava sua amiga dias após o falecimento. Sendo o ofício do magistério o que é hoje, não é de se surpreender que as palavras da amiga de minha mãe tenham sido as seguintes.
"Pra quê? Pra quê, meu Deus? Passei tantos anos tentando mudar alguma coisa na cabeça daquelas crianças, enquanto podia ter dado mais atenção pro meu marido! Podia ter vivido mais ao lado dele!"

Buscar as razões para o que fazemos constituí, em geral, mais angústia do que alívio. À parte aqueles que parecem já ter nascido com seus objetivos de vida programados na cabeça, a grande maioria de nós sabe pouco ou muito pouco o por quê de estar nesse mundo e o por quê de fazer o que faz.
Nesse meio tempo de vida que tenho, me agarro firmemente às coisas que considero importantes. Um título, posses materiais, posses emocionais, certezas, dúvidas. Por não saber direito qual é o meu lugar aqui, faço das coisas à minha volta o meu lugar e, aos poucos, vou firmando as bases daquilo que chamo de normalidade. Vou me adequando para seguir o protocolo (in)determinado por fatores quaisquer.
"Pra quê? Pra quê, meu Deus?" parece sintetizar os momentos de abatimento, quando se olha pra trás e o que se vê são cinzas e poeira.
De fato, parece natural dizer que devo buscar mais momentos, mais faíscas no espaço, que representam coisas de maior importância, pra quando olhar pra trás, puder dizer "Valeu a pena!" e não "Pra quê?".
Há um outro lado que me diz para desconsiderar quaisquer razões, por que elas nunca serão encontradas. O que se deve fazer é apenas viver, buscando aquilo que naturalmente se quer buscar, sem nisso se apegar.

Ao pensar dessa forma, me isolo do mundo, subjugando todas as coisas à minha condição. É a expressão initerrupta da força do meu ego. Me coloco externamente às outras coisas, buscando nelas as razões para o meu descontentamento. Sempre achei muito falho, mas nunca consegui me livrar disso. E daí nasce a oscilação entre o alto e o baixo, onde tem sido difícil encontrar o equilíbrio.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Res Publica

Não costumo falar de política no blog. Não que não discuta algumas coisas por entre alguns copos de cerveja com amigos da mesma idade, que, apesar de muito pouco entender do mundo político e do Congresso, esbravejam ao ouvir falar de Sarney e deste ou aquele partido, irrompendo em xingamentos e teses revolucionárias. Geralmente paramos por aí, passando a discursar sobre cinema ou as peripécias de cada um no dia-a-dia.

Angela Guadagnin, em "Dança da Impunidade" ou "Dança da Pizza"


Os recentes acontecimentos envolvendo os senadores da República me chamaram a atenção para um aspecto mais amplo, mais universal. Entre atos secretos, abuso de poder, clientelismos e um quadro asqueroso de impunidade, reside lá no fundo um ponto mais central: o descaso com a coisa pública.
O Estado democrático, sendo o que é, nada mais é do que o reflexo do espírito coletivo da sociedade, dizem alguns. Sendo aqueles que governam e que legislam os representantes do povo, dir-se-á que a culpa das coisas estarem como estão é nossa. Em última análise, correta do ponto de vista teórico, a soberania reside nas mãos do povo. A própria palavra democracia traz isso em sua etimologia.
Pois bem, acontece que na prática a teoria é outra. E o povo, tal como se encontra hoje, de soberano não tem nada. Essa discussão pode se estender por mais copos de cerveja que as geladeiras do bar podem suportar.

Deixando essa questão um pouco de lado, o que quero enfatizar é o ponto central, o descaso com a coisa pública. Para além da questão da representatividade e do funcionalismo público, o problema se estende também aos fatos mais corriqueiros do cotidiano. Pouco ou quase nenhuma é a consideração que a maioria dos indivíduos tem pelo coletivo. Seja o ato de jogar lixo na rua ou de desviar a verba destinada à merenda das escolas municipais, o que se costuma ver é quase sempre interesses particulares sobrepujando a boa conduta perante a coletividade.
Obviamente, comparar o ato de jogar lixo na rua com o desvio de verbas públicas é bastante forçado, mas a essência permanece a mesma.

Como membro integrante de um centro acadêmico, vejo, numa perspectiva micro, como a estrutura de poder pode ser distorcida. O uso da "máquina pública" visando a satisfação de interesses privados chega a um ponto que torna-se "natural". A visão de que, ao ocupar um cargo de representatividade, um sacrifício até certo ponto, o indivíduo pode dispor de privilégios pelo serviço que "presta" é comum. É algo como um pacto unilateral, onde quem governa coloca-se acima de quem é governado, assumindo privilégios e regalias para si. Passa-se por cima das regras, atirando ao lixo o legalismo e as cartas escritas para manter a imparcialidade e a igualdade jurídica.

"Ah, sou tal e tal, tenho direito a cortar fila ou não pagar por determinado evento".
Eu também gosto dessa idéia, quem não gosta?

Certa feita, uma professora contou uma história que ilustra bem esse fato no Brasil. Por ocasião da Copa do Mundo de 1994, quando a seleção brasileira foi a campeã, os jogadores trouxeram consigo alguns artigos comprados no exterior, mas que excediam o limite de valor possível de ser importado. Ao serem barrados no aeroporto, os assessores entraram em contato com a Receita Federal. O então responsável pela liberação negou aos jogadores a entrada no país, exigindo que pagassem os devidos impostos. A notícia chegou ao gabinete do presidente, na época Itamar Franco, que, passando por cima do diretor responsável na Receita, liberou a entrada dos jogadores com a muamba adquirida. O funcionário da Receita renunciou ao cargo.

É o famigerado "jeitinho brasileiro". Estou longe de ser exceção, antes que o leitor pense que a intenção do texto seja me isentar de alguma responsabilidade. O "descaso com a coisa pública" nesse país é enorme, a lei é lei para alguns, não passando de "juridiquês" bem escrito para outros. À maioria resta a possibilidade de indignação, poucas são as vezes em que passa disso. A persistente impunidade é ainda mais incômoda.

Bom...isso rende, pelo menos, boa matéria para as conversas de bar.


"Garçom, mais um chopp aqui, geladinho, por favor".

sábado, 22 de agosto de 2009

Citação de Sociologia

Interessante é a perspectiva sociológica. Reproduzo abaixo um trecho do livro "Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística", de Peter Berger. O trecho é parte do capítulo 4 do livro, onde o autor observa a sociedade como uma "gigantesca prisão", tal como trata a concepção de Durkheim. É, portanto, constituinte de um raciocínio maior e não deve ser tomado como único ou isolado.

"A sociedade, como fato objetivo e externo, manifesta-se sobretudo na forma de coerção. Suas instituições moldam nossas ações e até mesmo nossas expectativas. Recompensam-nos na medida em que nos ativermos a nossos papéis. Se saímos fora desses papéis, a sociedade dispõe de um número quase infinito de meios de controle e coerção. As sanções da sociedade são capazes, a todo momento da existência, de nos isolar entre os outros homens, expor-nos ao ridículo, privar-nos de nosso sustento e nossa liberdade e, em último recurso, privar-nos da própria vida. A lei e a moralidade da sociedade podem apresentar complexas justificativas para cada uma dessas sanções, e a maioria de nossos concidadãos aprovará que sejam usadas contra nós como castigo por nosso desvio. Finalmente estamos localizados na sociedade não só no espaço, como também no tempo. Nossa sociedade constitui uma entidade histórica que se estende temporariamente além de qualquer biografia individual. A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós. Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo. Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história."

Interessante, não?
É bom respirar um pouco esse semestre o ar livre das matematizações.

sábado, 15 de agosto de 2009

Pesaroso

Acordei hoje arrependido. Um arrependimento agudo, fino como a ponta de uma agulha, daquelas que me aplicavam nas brancas nádegas há alguns anos atrás.
Calçar o chinelo de palha ao sair da cama, lavar o rosto na água gelada, engolir o café na xícara rachada. Tudo era lembrança. Tudo foi fotografia.

Revejo o passado, tentando entender o presente. Tolice, dizem. O que aconteceu não pode ser mudado, não pode ser apagado.
Quem sabe? As ações do homem podem transpor as barreiras do tempo, podem seguir a direção anti-horária; não contra, mas com os ponteiros do relógio, tal como o velho e sua sombra projetada na calçada.
A que recorrer quando falta a coragem de assumir o erro? Não há do que me desculpar, não há sentido em pedir perdão, mas parecem ser "me desculpe" as únicas palavras cabíveis à situaçao. Ao primeiro olhar certamente abaixaria a cabeça, num gesto multifacetado, de significado obscuro.
Estar adormecido na arte parece ser um bom título, um pouco mais leve, menos repressivo.

Diante da incerteza, tomo mais uma xícara de chá e me ponho a investigar os meios de fazer o contato novamente. Frações de tempo depois, me ocupo de outras canções. Até o dia em que acordar arrependido novamente, quando tudo será lembrança uma vez mais.
Sua flor é o descanso, a repousar na estante. Graças a ela, tenho todo dia a lembrança de seu sorriso e de suas mãos, que tão cuidadosa e suavemente fizeram do papel uma rosa.


"Da hipótese tiro a síntese, e da síntese tiro a antítese."

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do respeito e da pesca pobre

Uma vez mais pude comprovar a minha inépcia na arte de pescar.
Parece fácil, basta colocar a isca no anzol e lançá-lo à água, esperando que o pedaço de isopor dê algum sinal positivo. Mas minha contribuição ao montante de peixes no final da tarde fica só no ato de cavocar a terra e dela tirar algumas minhocas.
Passar tardes com os avós é recompensador, para dizer o mínimo. Ouvir suas histórias, suas palavras de sabedoria...
"É preciso fazer silêncio, senão o peixe não vem, filho."

Atentamente observava a habilidade com que meu avô manejava a vara de pesca. Como numa dança, olhava, tirava e recolocava na água as sete varas com que pescava simultaneamente. Pescar para ele é um descanso, um repouso. Por mais que os peixes não venham, ele ficaria sentado à beira do rio, lançando suas varas.

Tudo completava a pintura, o quadro que compunha a cena. O vento batendo na superfície da água, esboçando leves ondas, numa simetria quase geométrica, o som das aves nos céus, a canção entoada e o Sol de fim de tarde, que pintava nas nuvens tons de vermelho e laranja.
Ah...que delícia estar ali, sentindo na própria pele a efemeridade e a eternidade de uma tarde diante de um rio. E era isso que era, uma tarde diante de um rio, nada mais que uma tarde diante de um rio.

"E então, filho, como está a faculdade?"
"Ah, vô, tá bem, normal."
"Hm...você tá fazendo francês né?
"É."
"Tá gostando? Olha o peixe na sua varinha."
"Tô gostando sim. Ah, droga, perdi..."
"Você puxou muito rápido, tem que esperar ele prender a boca na anzol."

Puxei tão rápido a vara da água que o anzol enganchou numa árvore atrás de mim. Enquanto desfazia o trabalho porco, meu avô tirava mais três tilapias dos anzóis. Era como se ele soubesse o momento exato, como se enxergasse através da água escura da represa. Devolvera um dos três, sob o argumento de estar muito novo.

"Então filho, aproveita agora essa época pra fazer as coisas que você tem vontade."
"Ah sim vô, estou aproveitando."
"Porque depois, quando você for ver já foi. Quando você chega no fim da vida é que vê o quanto deveria ter feito."

Parou por ali. Eu não tinha o que dizer, fiquei apenas aproveitando o momento.

"A bondade é o princípio do tato, e o respeito pelos outros é a primeira condição para saber viver" - Henri Frédéric Amiel


E hoje, data dedicada aos pais, a família se reuni para um almoço na casa dos avós. Foi, como sempre, um almoço como outro qualquer. Em verdade, pouca diferença faz se nos reunimos num dia das mães, num dia dos pais, num Natal ou numa Páscoa. A cena é sempre a mesma, os papéis se repetem, vontades são suprimidas. É irritantemente visível o tratamento que dispensamos a nossos pais e avós.
Aos dias determinados pelo calendário correspondem ações determinadas pelo bom senso. Portanto, no dia dos pais, desejamos a nossos pais um feliz dia dos pais - e assim sucessivamente. Correspondem também reuniões familiares (longe de se caracterizarem como tal). Quem faz a comida é a avó, quem senta na cadeira da ponta é o avô. Mas quem se serve primeiro é quem consegue.
É absolutamente impressionante o fato de ninguém se preocupar em, ao menos, verificar como estão meus avós. Se estão sentados, se estão com talheres, com copos. Se querem arroz, se querem um pedaço do frango, se querem algo mais. Não. Todos correm buscando garantir suas próprias porções de alimento. Servir? Ver se está tudo bem?

Talvez esteja exagerando, talvez esteja me colocando como "aquele que entende das coisas". De fato, posso não conhecer a relação de meus avós com meus tios (relação que tem o dobro da minha idade, diga-se de passagem). Mas reparo no que vejo, e o que vejo são demonstrações de desrespeito e até descaso em algumas circunstâncias.
Não sei se posso soltar a máxima do "não se respeitam mais os mais idosos". Fato é que o que costumo ver nos almoços de família é, para usar de eufemismos, incômodo. Falo pelo meu caso, por aquilo que conheço, longe de querer soar universal. Mas a coisa parece se reduzir a um "feliz dia dos pais" e a um presente. Os pais merecem muito mais do que isso, os avôs merecem o dobro. Respeito é o mínimo, e sempre vai bem uma pitada de consideração e preocupação.

Deveríamos aprender mais com os mais velhos. Deveríamos respeitar mais os mais velhos. Sobretudo quando o velho é seu pai.
Esse pode ser o último dia dos pais que passamos todos juntos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (5/5)

"Na vida pessoal

O professor de Psicologia da Universidade de Harvard Daniel Gilbert tem uma teoria bastante interessante sobre por que tendemos a deixar escapar tanta expectativa pelas frestas dos nossos desejos. Segundo ele, tentamos o tempo todo prever os acontecimentos da vida. Desde o momento que abrimos os olhos de manhã conjecturamos como será nosso dia no trabalho, o trânsito, o encontro à noite. E, de acordo com Gilbert, isso traz um ganho para a sensação de felicidade.

Antecipar nossos prazeres é uma forma de prolongá-los. Começar a pensar naquela festa uma semana antes nos permite “experimentá- la” por sete dias, em vez de curti-la só no sábado. Prever a viagem de férias é uma forma de se entregar ao merecido período de recesso antes mesmo de bater o ponto e pegar o avião (além de ser um estímulo a mais para as horas de trabalho, claro).

A ressaca desse processo, porém, é que não somos muito bons em prever nada realisticamente. Assim, quando começamos a pensar na festa uma semana antes, vamos criando uma expectativa grande sobre ela, achando que vai ser um momento de alegria genuína. No entanto, quando a festa chega, ela pode nem ser tão legal assim – e aí o sentimento de frustração vem à tona.

“Os acontecimentos futuros que nossa mente antecipa como grandiosos são frequentemente uma grande decepção”, escreve Gilbert no livro O que nos Faz Felizes. E isso vale, óbvio, não só para festas, mas também para os relacionamentos, empregos, objetivos de vida. “Como não conseguimos prever o quão felizes nos sentiremos com algum acontecimento futuro, criamos uma série de fantasias sobre nossa concepção de felicidade.” E elas, na grande maioria das vezes, não se concretizam. Aí, haja decepção!

Mas, além de inevitável, criar expectativas é indispensável para nos motivar a viver. Mesmo que muitas vezes quebremos a cara com as ilusões que criamos, sem elas seria difícil levantar da cama de manhã. Se você não imagina que seu dia possa ser bacana, dificilmente vai querer enfrentá-lo. Ou se já esperar que a festa vai ser ruim, não vai encontrar uma razão sequer para se motivar a ir. Sem expectativas, nos tornamos apáticos, sem vontade. Exatamente o mesmo sentimento que acomete os que sofrem de um mal como a depressão, por exemplo, quando tudo parece desinteressante e desanimador.

Esse é o resultado, também, de decepções que enfrentamos ao longo do nosso caminho. Algumas parecem ser tão doídas que nos deixam sem qualquer fio de esperança. Principalmente quando nos decepcionamos com nós mesmos. Porque daí, além de enfrentar a desilusão, temos que encarar também a culpa. “Por que fui apostar tanto nisso?” “Eu sou mesmo um idiota de ter acreditado naquilo.”

A saída, nesses momentos, é tentar desanuviar a mente e perceber a constatação humilde e realista dos fatos. Sem exageros, sem estardalhaços. Assim, as dimensões de uma decepção como essa se reduzem às de um fato totalmente possível a pessoas normais como eu e você, que não temos obrigação (nem possibilidade) de ser perfeitas. Então, dê-se um desconto. Criar expectativas não é uma escolha, mas um caminho que temos que seguir. O melhor a fazer é aproveitar o trajeto da forma mais tranquila e plena. Assim, a chegada tende a ser sempre compensadora."


Essa foi a quinta e última parte da série. E também a que mais elucida, na minha opinião.
Nunca tinha parado pra pensar no que disse o professor de Harvard. Digo, já tinha me dado conta de que antecipo o que acontecerá ao longo do dia, mas nunca tinha relacionado isso com "ganho para a sensação de felicidade" ou como prolongamento da sensação de prazer. E, por extensão, isso afeta todo o conjunto da obra de que trata esta série.
O exemplo da festa foi mais do que ilustrativo. Tudo começa já na propaganda da festa: "Open Bar de blá, blá, blá, blá! Performances ao vivo! Mulheres vip até a meia-noite!", e por ai vai. Conjectura-se todo o andamento da festa, planejam-se falas, olhares, abordagens. No dia da festa, come-se bem, toma-se um banho mais caprichado, utiliza-se o perfume empoeirado e a roupa bonitinha. Com tantas preliminares, a coisa deveria ser boa. No entanto, ao menos no meu caso, observo o contrário. Haha. E quando me perguntam como foi a festa, brado afirmando ter sido "muito loca".

É engraçado na verdade...agora vejo o quanto sou metódico no meu trato com o dia-a-dia, talvez em função de estar dentro de uma rotina ou talvez em função da invenção do relógio. Planejar o dia se tornou natural e criar expectativas sobre esse planejamento se tornou automático. Sei que todo o dia pego o jornal na portaria da faculdade, e todo dia espero a mesma reação do porteiro. Sei que ao chegar em casa vou sentar no sofá e teimosamente circular pelos canais da televisão, e todo dia espero encontrar algum programa interessante.
Prego tanto o desapego, a despreocupação com o tempo, a vivência do presente, o já desgastado carpe diem, mas faço tanto o contrário...sempre tentarei me lembrar que antecipar felicidade também pode significar adiar e potencializar sofrimento. Se a felicidade vir, devo aproveitá-la enquanto durar, pois as coisas acontecem quando acontecem e é assim que é. Mas se o sofrimento vier, devo suportá-lo enquanto durar, pois as coisas acontecem quando acontecem e é assim que é.

Gostei da passagem "criar expectativas não é uma escolha, mas um caminho que temos que seguir", na minha opinião a melhor do texto.


ps. Os textos foram retirados de http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/079/grandes_temas/conteudo_450012.shtml.

sábado, 25 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (4/5)





"Nos relacionamentos

Não há paixão sem idealização. O escritor francês Stendhal já sabia disso. No verão de 1818, ao fazer um passeio pelas minas de sal de Hallein, na Áustria, ele ficou encantado com o que viu. Os mineiros costumavam recolher galhos secos e sem folhas a armazená-los em locais de trabalho abandonados. Depois de um tempo, pelo efeito das águas saturadas de sal, esses galhos, após secarem, iam se cobrindo de cristais salinos, que lhes davam um efeito belíssimo. Os pedaços ficavam tão recobertos de sal que pareciam diamantes. Era quase impossível reconhecer que se tratava de galhos.

Stendhal percebeu ali uma metáfora para o amor romântico: no momento em que começamos a nos interessar por uma pessoa, não a vemos mais como ela realmente é, mas como nos agrada vê-la. A percepção real é tomada por idealizações que a transformam em poesia aos nossos olhos. “Dessa forma, sempre exageramos as qualidades da nossa paixão e acabamos subestimando as falhas e as características negativas que ela possa ter”, diz o psicólogo Thiago de Almeida, especialista em relacionamentos amorosos.

Esse poço de virtudes do nosso bem-amado vai se esvaindo conforme o conhecemos melhor. E, exatamente por termos pintado a pessoa como ideal demais, quando a descobrimos real ficamos decepcionados. O campo dos relacionamentos é o que mais carrega nos traços de uma idealização excessiva, por isso as frustrações amorosas são as mais sentidas. O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (como dizia Vinícius) porque ele é idealizado como perfeito demais para se desfazer. Nossa primeira noção de amor vem da nossa mãe, do amor absoluto que não tem fim. “E alguns continuam a exigir o incondicional amor materno, fantasiado e disfarçado em relacionamentos amorosos adultos”, escreve a psicoterapeuta Judith Viorst no livro Perdas Necessárias. Na vida real, os relacionamentos acabam, se desfazem – aposto que todo mundo tem aí algo para contar sobre o fim de uma paixão.

Porém, o lado bom dessa história toda é que, se superada a idealização, o contentamento romântico tende a amadurecer em uma união profunda. O que era pura “cristalização” dá lugar a um relacionamento real. Para que ele sobreviva às expectativas fantasiosas, é preciso aceitar que os galhos não são cristais de sal. Deve-se gostar dos galhos justamente porque eles são galhos – independentemente da forma como estejam recobertos.

A melhor maneira de evitar desilusões é planejar com realismo suas metas.

Passada essa fase inicial, a próxima também tende a ser complicada: fazer o relacionamento dar certo a despeito das perspectivas que criamos com relação ao parceiro. Não existe segredo para isso, mas os especialistas aconselham que a honestidade pode ser uma boa saída para evitar frustrações. Ponha as cartas na mesa: deixe claro o que espera da relação e o que está disposto a fazer para ela dar certo – e em que não consegue ceder. Dessa forma, as expectativas tendem a ser mais realistas e não caímos na tentação de querer presumir o que o outro pensa ou deseja. Nem querer que o outro adivinhe o que esperamos dele."


Nesse temos de tudo, um escritor, um psicólogo, uma psicoterapeuta e, logicamente, Vinícius, que não poderia faltar quando o tema é esse.
Concordo com a quase totalidade do que foi dito. Apesar de (achar) seguir o manual da não-idealização e do realismo, não sei até ponto posso me ater a ele.
Ela é perfeita pra mim, e não sei quando vai deixar de ser. Talvez aconteça um dia, talvez não. Quem sabe?

Dos relacionamentos que já tive tirei lições das expectativas e frustrações. É como diz o texto, não podemos esperar que o outro adivinhe o que estamos pensando, o que estamos querendo, nem o que estamos planejando. A insegurança e o medo da coisa toda acabar fecham os olhos para o que poderia ser vivido, e muitas vezes acabamos com uma lista das coisas que achamos que temos que fazer, como se fôssemos seguir um manual, uma receita.
É preciso saber ceder, nem dar de menos e nem dar de mais. Mas é sempre preciso estar lá pra quem se ama.

Talvez o amor, como dizia Vinícius, seja mesmo a coisa mais triste quando se desfaz.
E ouçamos à voz de Gal Gosta.
 


Eu amei,
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais,
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz