segunda-feira, 4 de maio de 2009

Entre jornais e nescafés

Hoje, enquanto saboreava meu tradicional nescafé com leite, assistia despretenciosamente ao Jornal da Record. Como de costume, me aloquei no canto mais confortável do sofá, tomando o devido cuidado para manter os pés sob as almofadas, de modo que ficassem aquecidos. Fazia um pouco de frio na sala e um banho quente era o que dominava minha mente.
Após tomar alguns goles e escutar algum ruído sobre a má imagem do congresso nacional, passei a prestar atenção no que dizia a repórter. Segundo diziam os jornalistas, algumas regiões do país têm sido fortemente castigadas por fenômenos climáticos de várias ordens.

Hoje, por exemplo, São Paulo presenciou incomuns ventanias, ultrapassando as velocidades consideradas altas para a região. Dois sujeitos que trabalhavam num andaime passaram por uma situação, digamos, cinematográfica. Balançavam feito bonecos, se chocando com as laterais de um prédio vizinho. Por sei lá que força não caíram, sofrendo apenas ferimentos pelo corpo, nenhum grave.
Mais ao norte dessas terras, quem mostra as caras é a chuva. Teresina, no Piauí, por exemplo, teve algo da grandeza de 65 bairros alagados. A cheia do rio X levou água barrenta a um sem-número de casas, levando a perdas materiais significativas.
No Maranhão, a situação também é bastante grave. Na BR-X o rio varreu parte da estrada federal do mapa. Formou-se então uma fila descomunal de caminhões, já parados há oito dias.
Enquanto isso, no sul o que assola a população é a seca. Rios secando e safras se perdendo já preconizam os tempos difíceis que estão por vir.

Assistir a notícias como essas e ver a situação por que passam aquelas pessoas me incomoda, me diminui. O João da história vendida pelo jornal diz que perdeu tudo, que não tem mais condições de ficar onde está. Sensibilizado, termino meu nescafé com leite.
Engraçado é perceber as exclamações da família que se junta para acompanhar as notícias. "Meu Deus, que horror...", "a coisa está feia por lá, hein" ou ainda "que sujeito teimoso, por que não constrói a casa em outro lugar?".

Imaginem a situação: você sai para trabalhar (e o trabalho já não é fácil) e quando volta, sua casa foi simplesmente invadida por um monte de água barrenta. Seu sofá, sua tevê, sua cama, suas roupas de baixo, suas camisas, sua escova de dentes, sua geladeira...tudo, absolutamente tudo foi perdido. E não há a quem recorrer, não há a quem pedir indenização (peço a meus colegas bacharéis em direito minhas sinceras desculpas caso tenha redigido merda). Simplesmente tudo se foi. E além disso, supondo que você se recupere materialmente desse infortúnio, ainda tem de conviver com a incerteza de que tudo pode acontecer de novo.
Deve ser algo um tanto difícil.



Não que, na minha condição, eu vá ser de alguma ajuda. Sentido algum faz eu jogar o resto de nescafé com leite na pia e viajar para o nordeste exercer voluntariado.
É que é meio cômico esse costume diário que temos de nos reunir na sala para ver a desgraça alheia, enquanto comentamos por entre as manchetes como a mulher que teve a casa destruída era gorda ou o outro sujeito era desdentado. Aliás, é sempre antes do jantar. Vou para a cozinha comer a lasagna enquanto a menina Sarney, governadora do Maranhão, vocifera ante os microfones que precisa de cestas básicas para os abrigos.
Não me culpo, embora talvez deva, nem afirmo que o objetivo dos telejornais seja o de mostrar a desgraça alheia. Mas a simultaneidade desses acontecimentos me intriga.

Mas que seja, estudo economia. A nível macro, esses desastres naturais representam apenas alguns rombos nas contas públicas e algumas cifras a menos no PIB da região afetada. Há algum gasto com saúde e alterações em outras variáveis, mas isso não tem expressão significativa.
Enfim, vou fazer um nescafé com leite agora, é hora do jornal das dez.

domingo, 26 de abril de 2009

¿Que pasa?

Surpresas costumam ser boas, mensageiras de tempos melhores. Mas os costumes mudam ao longo do tempo.
Eu, por exemplo, abandonei o costume de ser indiferente às minhas vontades. Agora, adotei o costume de preparar uma infusão de chá verde todos os dias, por volta das 20h.
Que coisa, não? Deve ser por isso que costumo dormir diferentemente do que dormia antes. Mas não estou surpreso.

Desacostumado a lidar com surpresas, me perdi ao me deparar com uma em tempos recentes. De uma vontade suprimida ressurgiu uma tormenta de expectativas e esperanças.
Sentir o que venho sentindo me intrigou. Racionalista que sou, procurei analisar a situação e buscar as suas razões. Incansavelmente, ponderei sobre o que poderia estar acontecendo. Mas os resultados foram pouco satisfatórios.
Por que é que estou assim? O que é essa insuportavelmente constante vontade?

Trata-se, como o leitor decerto pôde depreender, de uma garota. Sim.
A priori, essa constatação pode criar a falsa impressão de se tratar de um texto raso, sem conteúdo, fruto de desencontros sentimentais de um moleque de 20 anos - não que eu assuma que agora esteja escrevendo textos maduros.
Entretando, espero que a constatação posterior contradiga o que lhes trouxe essa primeira impressão.

Pois bem.
Veja.
...
A coisa aqui vai além dos títulos. Não me importa se vão dizer que estamos "ficando" ou "namorando". Não me importa se vamos nos dar anéis, se vamos nos dar presentes no 12 de junho, se vamos nos abraçar, nos beijar. Trata-se de algo maior, algo que não sentia há sei lá quanto tempo.

É como se fosse uma mistura de respeito, cumplicidade, companheirismo e segurança. Não há descrições. O que ocorre é que simplesmente ficar perto dela me faz bem. E é um bem indescritível, como se mais nada fosse necessário, como se mais nada realmente importasse.
Por que é com ela não sei. Mas ela é diferente das outras, e as outras são diferentes dela.
Em suma, é como se a forma que essa relação assumir fosse irrelevante. Como se eu estivesse concentrado num ideal, numa situação até certo modo hipotética, num sentido último que não esse que conhecemos por relação entre homem e mulher. Como se o que bastasse fosse dela um sorriso e um olhar, na certeza de que ela está bem e em paz.

Mas, se ela é o centro do sentimento, por que esse desejo de que ela sinta a mesma coisa? Contradição? Incoerência?

Se é recíproco ou não, quem sabe? Até que ponto o que cada um quer é o que cada um pode dar? Até que ponto o que cada um pode dar é o que cada um quer? E até que ponto a idéia do que cada um pode dar ou quer faz algum sentido? Essas perguntas se tornam um tanto perturbadoras, são barreiras que construí dentro dos meus próprios pensamentos, como se quisesse me convencer que não fosse dar certo.
Mas aos poucos me acostumo com a idéia de que o que eu quero e o que ela pode dar é irrelevante perto do possível fato de estarmos juntos.

Creio que é mais um texto de temática existencialista, apesar da roupagem aparentemente infantil. No fundo, talvez eu busque um sentido pra toda essa mecanicidade que dirige minha vida diária. Um sentido que acredito ter encontrado na figura de uma garota, figura esta afísica, quase metafísica.
Se não der certo, volto à busca inconsciente pelo sentido, que faço desde que nasci. Busca essa presente em cada ser humano, que, entre encontros e desencontros, vão vivendo, sobrevivendo e subvivendo.

sábado, 11 de abril de 2009

Contradições e incoerências

Existencialismo tem sido objeto recorrente em meus textos. Uns falam de sentido da vida, outros de sentido dos outros. Quase sempre me coloco no centro dos fatos, como se fossem condicionados à minha própria existência e interpretação.
Enxergar do outro lado da janela se apresenta como tarefa hercúlea, decorrente do meu próprio ego, um exercício de falsa humanidade. Finjo que enxergo através do vidro, que compreendo o movimento das folhas no campo mais à frente. E como isso me satisfaço, me isento de maiores responsabilidades e preocupações.

Como tomar ciência de meus fantasmas? Como encarar os medos e angústias? Como lidar com minhas preocupações e expectativas? "Navegar é preciso", diria um sábio homem. Navegar é preciso...

Estudar economia pode ser por vezes muito perturbador. Há matérias como "Formação Econômica e Social do Brasil", "Economia Brasileira Contemporânea", tópicos como "Teoria do Subdesenvolvimento", "Desigualdade de Renda e Pobreza", entre tantos outros de nomes opulentos e imponentes. A perturbação decorre não da dificuldade existente, mas sim da carga de responsabilidade que essas matérias trazem no nome.
O que cabe ao estudante que opta por estudar o subdesenvolvimento e a pobreza? Entendê-los? Elaborar teses e artigos sobre as razões da baixa produtividade da economia somaliana? Teses essas acessíveis apenas à comunidade acadêmica, dada sua linguagem e caráter elitista?
As limitações à ação e os horizontes de mudança parecem muito distantes, muito pouco paupáveis. Chegam a ser desanimadores.

Diante desse quadro, rio da minha própria postura.
Por mais que me interesse pela "formação econômica e social do Brasil", minha preocupação depois da aula é com a composição do meu almoço, cuja delonga não pode ultrapassar 25 minutos. Depois tenho francês, e o ônibus demora um bocado. "Não posso me atrasar", é a conclusão que tiro.
Isso quando não há festas. É nelas que nego tudo aquilo que me propus a ser. É nelas que afirmo e reafirmo a minha futilidade, a minha mediocridade.
Claro que é impossível se comportar da mesma maneira sempre, mas isso não invalida a auto-cobrança.

Já participei de projetos sociais, de iniciativas de ONGs e coisas afins. O resultado foi sempre o mesmo. Vou, faço o que me é passado pra fazer, me sensibilizo com a situação, me despeço das pessoas e volto à minha vidinha onde tudo se encaixa.
A comparação entre as realidades que se vivencia é inevitável. Durante algumas semanas após os trabalhos sociais, eu não conseguia jogar comida fora, jogar lixo no chão ou reclamar com minha mãe por ter arroz e feijão no almoço de novo. Passados alguns meses meu comportamento vai contradizendo as coisas que vivenciei.
Não que eu não tenha realmente mudado em alguns aspectos, mas ainda sim...

E pior! Eu volto dessas experiências achando que "ah! Agora compreendo o mundo!".
Não! Eu não compreendo o mundo, eu não conheço o mundo. E não é fazendo matérias como "Formação blá, blá, blá" que eu vou entender o Brasil e poder tirar conclusões sobre ele.



Sou um poço, ou melhor, sou uma vala de contradições e incoerências. Discurso e ação se confundem e perdem o sentido. Meus voláteis ideais são engolidos pelos meus desejos imediatistas. E a concorrência é totalmente desleal.

Até onde vai minha "consciência social"?
Até onde vai minha "intelectualidade"?
Até onde vai minha "compreensão da realidade"?
Até onde vai minha "ação individual"?

São mais exercícios egoístas.
É mais do mesmo.

domingo, 15 de março de 2009

Ora flor, ora náusea

Rasa e vazia é a minha compreensão do que nos faz viver essa vida, do que move cada ser humano e o põe a realizar suas obrigações diárias. E, quem sabe, resignar-se diante delas.

Acostumado à filosofia de boteco, me acomodei confortavelmente sobre os assentos do limitado terreno da ciência, que com suas metodologias, pressupostos e leis clama elaborar modelos perfeitos e necessários para explicar a dinâmica da sociedade.
De antemão deixo claro que não passo de um moleque, crente que sabe alguma coisa desse mundo. Se um dia entender um pouco de vinho tinto, harmonia funcional e política fiscal me darei por satisfeito.
Mas, por favor, não me venham com contratos sociais e axiomas da racionalidade. Nada disso procede agora.

Pelas ruas, o que se vê, ou o que se quer ver, é a barbárie e a mecânica infelicidade. A gente anda desvairadamente pelos corredores, cada um querendo chegar primeiro, querendo levar vantagem. Olham-se uns aos outros com desconfiança e investigacionismo; de pronto colocam-se na defensiva, com a premissa de que o ataque é a melhor defesa.

Param. O sinal está vermelho.

Na tentativa de adiantar-se alguns segundos, o sujeito tem suas pernas atingidas pelo parachoque da máquina. Tomba na avenida e morre na contramão, atrapalhando o tráfego.
Curiosos surgem às dezenas, com suas expressões e interjeições das mais diversas.
Desconcertados perante a cena, alguns outros adotam a postura da indiferença, enquanto aguardam resguardados em seus jornais e fones de ouvido. Já acostumaram-se às desconstruções.
O sujeito que dormia na sarjeta acorda com a súbita movimentação e, após verificar do que se trata, volta a dormir, encolhendo-se em seus panos.
Uns poucos param para ajudar na dramatização. É tempo de cuidar dos trâmites legais, basta assinar uns papéis que tudo estará resolvido.

Do outro lado da via, um sopro de humanidade. Um bebê ri, gargalha sob os braços de sua mãe, que o contempla num sorriso verdadeiro. Parecia estar feliz, parecia estar vivo. Inocente e livre da consciência de que o mundo é o que é; ignorante, mas dono de uma sabedoria muito maior do que a maioria de nós conseguiria compreender.
Sua risada é a flor que rompe o asfalto, é a garantia de que talvez essa vida ainda valha a pena.

De fato, vivo no chão da capital cinzenta, sobre o negro solo rígido e quente. Mas pacientemente aguardo, e avisto flores furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Sim, por ora me convenço de que vale a pena me pôr a realizar minhas obrigações diárias.



"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Álvaro de Campos

domingo, 8 de março de 2009

Quase três da manhã com blues

São agora [quase] três da manhã. E eu não consigo nem fechar meus olhos. Não sei o que me deu hoje, tenho dormido bem nas últimas semanas. Talvez seja a cafeína, hoje tomei três xícaras de café e uma caneca de chá verde. Minha mãe me acompanha nos cafés, mas meu pai é enfático, "isso vai te fazer mal...", comenta como quem não quer ser contrariado.
Pode até ser que minha repentina insônia seja decorrente das cavalares doses de cafeína no meu sangue, mas prefiro acreditar que não seja por isso. Seria realmente incômodo ter que abolir ou mesmo reduzir meu consumo de cafeinados.

Na minha inabilidade de adormecer, às vezes ouço blues, principalmente os lentos, carregados no baixo e no piano.
Quem me acompanha hoje são os gigantes BB King e Eric Clapton, na música que alavancou a carreira do Blues Boy. O título e a letra não poderiam ser mais apropriados.

A vida de Riley Ben King foi difícil no começo, colhia algodão e vivia sozinho já aos 9 anos. Tocava por hobby e alguns trocados na porta de uma igreja, ganhando pouco. Após partir para Memphis em busca de um futuro musical, BB King inicia uma carreira de sucesso. Serviu e serve de inspiração para muitos guitarristas e músicos de vários países e culturas.
Essa música que escolhi pertence ao álbum Riding With The King, de 2000, no qual BB King toca junto com Eric Clapton. Dá pra ver nitidamente a diferença entre os dois guitarristas, tanto nas improvisações quanto na voz.






Three O'Clock Blues

Well now, it's three o'clock in the morning
And I can't even close my eyes.
Three o'clock in the morning
And I can't even close my eyes.
Can't find my baby
And I can't be satisfied.

I've looked all around me
And my baby, she can't be found.
I've looked all around me, people,
And my baby, she can't be found.
You know if I don't find my baby,
People, I'm going down to the golden ground.

Goodbye everybody,
I believe this is the end.
Oh, goodbye everybody,
I believe this is the end.
I want you to tell my baby,
Tell her please, please forgive me,
Forgive me for my sins.



A música negra é realmente fascinante, e guarda mais segredos do que uma primeira visão pode contemplar. A estrutura da letra remete às worksongs e spirituals cantadas pelos escravos nas lavouras e minas dos EUA. Há uma narração, que é geralmente repetida, e uma resposta, formando pequenas narrativas. Os temas mais recorrentes permeiam a dura realidade por que passavam os negros naquela época, vão desde amores perdidos à opressão do homem branco.
As vozes e as guitarras falam a mesma língua no blues, num diálogo de lamentos, mas bastante agradável aos ouvidos.

Continuo sem sono. Talvez deva apelar pros comprimidos.