Há tempos não escrevo alguma coisa. Queria ter escrito sobre isso ou aquiloutro, mas sempre conseguia arranjar a desculpa de tempo. Aliás, queria escrever sobre a falta de tempo e como isso se torna justificativa para me abster de determinadas coisas.
Queria sim, mas ando meio sem tempo...
Escrevo sobre outra coisa então, mais prática, menos existencialista, ainda que quase-filosófica.
Falemos sobre o trabalho, mas sem nos estendermos muito.
Discursos sobre labuta costumam cair ou numa questão religiosa, ou numa questão utilitarista. A intenção é fugir das duas, mas não boto muita fé no sucesso...
Isso me veio à cabeça e às mãos que digitam no teclado pelo fato óbvio de estar procurando emprego. Ou melhor, estar procurando estágio. Aliás, com as facilidades da informática e com a ampla (até demais, por vezes) difusão das empresas de recursos humanos e consultorias congêneres, basta um clique para se candidatar a uma vaga de estágio e alguns e-mails para acompanhar o processo.
As grandes empresas, dispostas a ajudar os jovens no seu processo de formação, abrem programas de estágios complexos e de amplitude considerável. O cartaz é atraente, nos passa a impressão de crescimento.
"Nossa, agora vai, vou finalmente começar a trabalhar, estou avançando na vida!"
Quase que toscamente, olho para os cartazes esboçando suspiros, fantasiando sobre a futura segunda-feira em que chegarei na empresa, dando bom dia aos demais funcionários e sorrindo.
E nas dinâmicas de grupo, gostamos de parecer adultos, exibindo nossos cursos incompletos e nossas vestimentas sociais emprestadas de nossos pais. Fazemos fala firme, com palavras bonitas, determinadas, que não ficam sem saber a que vieram. Quando um outro candidato se porta de maneira indevida, ou fica um pouco mais nervoso do que permite a situação, seguramos o riso, enrijecendo as bochechas, comemorando por alguém ter feito a besteira antes de nós.
É até um pouco divertido, ver aquele grupo de pessoas (de idade média entre 20 e 21 anos, convém citar) ostentando ares de importância e de maturidade.
Gosto de títulos, apesar de mostrar histórico repúdio a adotá-los. Recentemente, candidatei-me a vagas como
"Investment Banking" (
IB, ou "aibí", para os mais íntimos), "
Asset Management" e "
Câmbio/Exchange". São coisas importantes, não? E eu não faço a menor idéia do que querem dizer! (exceto pelo caso do câmbio, que me interessa um pouco mais)
"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois" (Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")
De conversas com outras pessoas, levo exemplos mais concretos. Dois são dignos de citação: Francisco e Ricardo.
Francisco é motorista de caminhão. Conheci há duas semanas, quando contratamos a empresa em que trabalha para transporte de pisos intertravados. Sujeito simples, tinha ar de vivido. Gostava de contar histórias, de quando dirigia o caminhão para empresas importantes e de como era apaixonado por aquela vida de estrada. Durante o pouco contato que tivemos, contou-me algumas de suas empreitadas, com a empolgação de um menino que contava pra seus pais como fora o primeiro dia de escola, mas com a sabedoria de um velho que dava conselhos a seus netos. Tinha fala mansa, pausada, sempre olhando para a estrada; dispensava à maquinaria do veículo um trato suave, quase carinhoso.
Ricardo é vigilante noturno do condomínio em que moro. Todos os dias, vem de ônibus de Pinheiros até Osasco à noite, saindo pela manhã, quase junto com o nascer do Sol. Também é um sujeito simples, de poucas, mas certeiras, palavras. Certa feita nos encontramos no ônibus durante a noite, e ele me contava sobre as coisas por que passava como vigilante noturno.
Ambos, na sua simplicidade, emanavam experiência e sabedoria. Começaram a trabalhar muito cedo. Francisco veio do nordeste com o pai, deixando em casa a promessa de remessa mensal da quantia que conseguissem. Ricardo é paulista mesmo, de sua infância desconheço, mas certamente deve ter sido mais dura que a minha.
Pessoas como Francisco e Ricardo trabalham muito, ou porque gostam ou porque não tem outra opção, mas sempre porque precisam, porque tem bocas a alimentar. Não escolheram estar onde estão, foram levados pelas duras ondas da vida. Não tiveram chance de escolher entre "
Investment Banking" ou
"Asset Management", tampouco tem diploma universitário.
Aliás, Francisco foi sempre uma surpresa. Na hora de ir embora, lhe ofereci uma cerveja (que de pronto recusou, sob o argumento de estar dirigindo...atitude louvável, quebra de minhas expectativas preconceituosas) e troquei com ele algumas palavras. Era conhecedor do jazz, sonhava em tocar saxofone! Sabia trechos de músicas de Coltrane, de Lester Young, Charlie Parker...Meu Deus, como eu fui preconceituoso...Confirmo a tese de alguns autores que dizem que a classe média tenta atribuir ao jazz o status de música erudita, restrita a poucos.
"O trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível" (Anatole France)
Enfim...posso me alongar demais, ir por caminhos outros que demandariam outras páginas. A propósito, creio ter me desviado do assunto proposto inicialmente. Paro por aqui.
Não quis com essa pequena digressão desqualificar o trabalho dos estagiários, muito pelo contrário (afinal, espero, serei um deles). Nem dizer que a gente letrada não merece o reconhecimento que tem. Há uns que tem oportunidade e há outros que não. E há aqueles que vão atrás da oportunidade, mesmo não a tendo a priori. É assim que sempre foi e é assim que é.
Só digo, e digo sobretudo a mim mesmo, que às vezes é preciso ser mais modesto e humilde quando olhamos para nós em relação aos outros. Ostentar títulos e currículos recheados de cursos e experiências diversas é saudável até certo ponto.
Lembremo-nos que quem constrói os prédios em que estudamos e as pontes por onde passamos com nossos carros recém adquiridos, e quem prepara o café que tomamos enquanto conversamos sobre as mazelas sociais do país não são os candidatos a
"Investment Banking" ou "
Asset Management", mas sim pessoas simples como Francisco e Ricardo, que podem muito bem entender de Gramsci ou gostar de música barroca.
É importante sim valorizar o que se tem e o que se conseguiu ao longo da vida, mas sem excessos, pois dessa forma corre-se o risco de incorrer na prepotência.
Que eu seja mais humilde e menos preconceituoso.