sábado, 19 de dezembro de 2009

Summa cum Laude

Não escrevo nestas páginas há muito tempo. É verdade, estive um tanto ausente. Mas deixemos os arrependimentos e os choramingos de lado. Abster-me-ei, portanto, das introduções maçantes, ainda que a contragosto.






"Com a maior das honras" é a tradução da expressão latina que dá nome a esse texto. É essa a honraria que expressa o reconhecimento por obter a mais alta qualificação possível em uma titulação acadêmica. Seu uso não é muito difundido por estas terras, ficando restrito ao círculo anglo-saxão da humanidade.
Lembro-me de quando ganhava o "Parabéns" da professora do ensino fundamental. O esforço não era de todo desgastante, bastava caprichar um pouco na letra, evitar as rasuras...convinha também o truque da maçã e da política do bom samaritano, a fim de mostrar maturidade precoce.
Na universidade, entretanto, os métodos escusos de promoção intelectual parecem ter seu escopo de ação duramente limitado.

O reconhecimento vem.
De fato.
Mas apenas àqueles que realmente o fazem por merecer.

"Summa cum Laude" é algo que não terei no diploma, em absoluto.
Talvez, quem saiba, por obra do destino, ou de algum mal-entendido proposital, saia com alguma singela honraria. Mas duvido que, se vier, venha em latim. Oh, que pena...
A questão central, já um tanto batida, convenhamos, se dá em torno da responsabilidade inerente ao fato de estar numa universidade pública. Não pelo fato de todos pagarmos os impostos que sustentam o funcionamento da instituição (afinal, pagamos também os garis que limpam as ruas, mas a responsabilidade por jogarmos lixo em vias públicas parece ser bem menor, senão quase inexistente), mas pelo fato de haver uma fila enorme de indivíduos potencialmente melhores e pelo próprio papel da Universidade na sociedade.
(Agora, se eu entrei e eles não é ponto para outra discussão. O vestibular não tem como critério a responsabilidade e o comprometimento com a melhoria da Universidade Pública. Ele é do jeito que é, conteudísta e técnico. E não estou fazendo juízo de valor, nem dizendo que tenho coisa melhor a propor.)

Veja...Vivenciar o ambiente da Academia deveria ser um dos períodos mais frutíferos da vida de um jovem que se propõe a estudar a ciência, em suas diferentes vertentes. Poder trocar idéias com os docentes é algo maravilhoso. São todos doutores, muitos obtiveram o título em instituições européias e norte-americanas.
O ambiente acadêmico não deveria ser então efervescente?! Vivo?! Numa constante ebulição de novo conhecimento e de discussão dos problemas mundanos e soluções para esses problemas?!
Ahn...talvez no plano dos idealistas essa coisa toda funcione.
Assim como o "Summa cum Laude" parece cada vez mais distante do meu diploma, a Academia tal como descrita acima parece cada vez mais irreal. De antemão digo que essa é a minha experiência, no âmbito específico da faculdade em que estudo e do curso que faço. Nâo se trata de uma digressão a nível macro.

Tem-se de um lado, uma grande maioria de estudantes (excluem-se alguns poucos que realmente fazem jus ao título, por diversas razões) cuja preocupação principal é conseguir a aprovação nas disciplinas que se propuseram a cursar. A escolha destas, ademais, é baseada no critério da "aprovabilidade" e do quanto ela pode contribuir para a manutenção de uma média ponderada em níveis não vergonhosos. Poucos são os que cursam uma disciplina única e simplesmente em função do interesse despertado pelo programa.

Do outro lado, tem-se um grande número de docentes cuja preocupação principal é a manutenção e expansão de sua produção científica. Prezam, também, pela boa reputação no Departamento e pela estabilidade do vínculo empregatício com a instituição. Nesse sentido, mostram pouco interesse e motivação para com a graduação, "facilitando" o acesso do aluno à disciplina que leciona.

Firma-se então o chamado "pacto da mediocridade", onde o aluno, sob o manto da "aprovabilidade" e da manutenção de sua média ponderada em níveis pífios, aceita e adota uma postura conivente com um docente que dá uma aula de baixa qualidade, com um baixo nível de exigência.
A fim de facilitar a vida, ambos firmam o pacto informal, de modo a prosseguir com as demais atividades do dia-a-dia de forma tranquila.
Ora, isso é lamentável, sem dúvida. Entretanto, pouco se faz para mudar esse quadro, o custo seria alto demais.

É comum ver a gente discursar sobre a qualidade do ensino no país, da pouca vontade política do governo em adotar políticas educacionais mais sólidas...mas poucos olham para o próprio quintal.
Uma vez mais, me enquadro em minhas próprias críticas, mas pouco ajo no sentido de buscar soluções.
Aproveito para expressar meus votos de estima aos que merecem o "Summa cum Laude" em seus diplomas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Preze

Tenho tido pouco do que reclamar. À parte assuntos de importância menor, minha vida tem sido bastante acertada. A família é consideravelmente unida, a faculdade é boa, o dinheiro não é problema crítico... Diferentemente de outras pessoas que tenho conhecido ultimamente, as coisas tem sido fáceis para mim.
Claro, o tempo parece não sobrar, mal dando conta de cumprir as atividades por mim - e para mim - propostas a priori. Mas isso também é decorrente do amplo leque e da abundância de atividades que posso fazer parte.
As notas podem não estar tão azuis quanto gostaria, assim como o esforço por mim desempenhado está aquém do acredito poder oferecer. Mas fica para outros escritos a desilusão com as obrigações e sucessos da trajetória acadêmica.

Enfim, num geral, as coisas vão muito bem.

Não costumo tomar partido da postura otimista com frequência. Raras são as vezes que faço prevalecer o positivo sobre o negativo. Mas recentes conhecimentos e palavras tem evidenciado um pouco a forma como valorava as coisas dessa vida há uns tempos atrás.
Acostumei-me com as salas de ar condicionado, com os veículos novos e com a comida por kilo. Havia esquecido a atmosfera que envolvia um hospital e a proximidade da morte, a simplicidade de um pedreiro, a importância de um prato de comida, o abraço de uma mãe...
Dar valor ao que temos é fácil no discurso. Na ação é preciso sinceridade, integridade. É preciso ser menos egoísta, ceder em certas situações. É preciso presentear, seja qual for a forma do presente. É preciso usar isso para crescer, para fazer mais e melhor. É preciso se colocar no lugar do outro.

O reconhecimento de que há de se atribuir valor a aquilo que consideramos importante tem me acometido com maior intensidade nos últimos tempos.

Devo isso, em grande parte, a você, menina artista, mãe das minhas flores de papel.
A você, que parece me curar de todos os sentimentos ruins.
A você, detentora de uma alegria indescritível, de uma energia contagiante.
A você, que me olha com seu olhar penetrante; e que ri ao esboço de uma careta minha.
A você, que me acalma com um abraço e me abranda a turbulenta espiral de pensamentos da mente.
A você, ladra dos meus sonhos e da minha mente nas horas vagas.
A você, que merece mais valor do que acredito poder dar.


A você, menina linda dos cabelos escuros e da pele clara, do toque suave e do sorriso iluminado, um sincero e alegre obrigado por fazer parte da minha vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Do estágio e da labuta

Há tempos não escrevo alguma coisa. Queria ter escrito sobre isso ou aquiloutro, mas sempre conseguia arranjar a desculpa de tempo. Aliás, queria escrever sobre a falta de tempo e como isso se torna justificativa para me abster de determinadas coisas.
Queria sim, mas ando meio sem tempo...
Escrevo sobre outra coisa então, mais prática, menos existencialista, ainda que quase-filosófica.

Falemos sobre o trabalho, mas sem nos estendermos muito.
Discursos sobre labuta costumam cair ou numa questão religiosa, ou numa questão utilitarista. A intenção é fugir das duas, mas não boto muita fé no sucesso...

Isso me veio à cabeça e às mãos que digitam no teclado pelo fato óbvio de estar procurando emprego. Ou melhor, estar procurando estágio. Aliás, com as facilidades da informática e com a ampla (até demais, por vezes) difusão das empresas de recursos humanos e consultorias congêneres, basta um clique para se candidatar a uma vaga de estágio e alguns e-mails para acompanhar o processo.
As grandes empresas, dispostas a ajudar os jovens no seu processo de formação, abrem programas de estágios complexos e de amplitude considerável. O cartaz é atraente, nos passa a impressão de crescimento.
"Nossa, agora vai, vou finalmente começar a trabalhar, estou avançando na vida!"
Quase que toscamente, olho para os cartazes esboçando suspiros, fantasiando sobre a futura segunda-feira em que chegarei na empresa, dando bom dia aos demais funcionários e sorrindo.

E nas dinâmicas de grupo, gostamos de parecer adultos, exibindo nossos cursos incompletos e nossas vestimentas sociais emprestadas de nossos pais. Fazemos fala firme, com palavras bonitas, determinadas, que não ficam sem saber a que vieram. Quando um outro candidato se porta de maneira indevida, ou fica um pouco mais nervoso do que permite a situação, seguramos o riso, enrijecendo as bochechas, comemorando por alguém ter feito a besteira antes de nós.
É até um pouco divertido, ver aquele grupo de pessoas (de idade média entre 20 e 21 anos, convém citar) ostentando ares de importância e de maturidade.
Gosto de títulos, apesar de mostrar histórico repúdio a adotá-los. Recentemente, candidatei-me a vagas como "Investment Banking" (IB, ou "aibí", para os mais íntimos), "Asset Management" e "Câmbio/Exchange". São coisas importantes, não? E eu não faço a menor idéia do que querem dizer! (exceto pelo caso do câmbio, que me interessa um pouco mais)

"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois" (Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")

De conversas com outras pessoas, levo exemplos mais concretos. Dois são dignos de citação: Francisco e Ricardo.
Francisco é motorista de caminhão. Conheci há duas semanas, quando contratamos a empresa em que trabalha para transporte de pisos intertravados. Sujeito simples, tinha ar de vivido. Gostava de contar histórias, de quando dirigia o caminhão para empresas importantes e de como era apaixonado por aquela vida de estrada. Durante o pouco contato que tivemos, contou-me algumas de suas empreitadas, com a empolgação de um menino que contava pra seus pais como fora o primeiro dia de escola, mas com a sabedoria de um velho que dava conselhos a seus netos. Tinha fala mansa, pausada, sempre olhando para a estrada; dispensava à maquinaria do veículo um trato suave, quase carinhoso.
Ricardo é vigilante noturno do condomínio em que moro. Todos os dias, vem de ônibus de Pinheiros até Osasco à noite, saindo pela manhã, quase junto com o nascer do Sol. Também é um sujeito simples, de poucas, mas certeiras, palavras. Certa feita nos encontramos no ônibus durante a noite, e ele me contava sobre as coisas por que passava como vigilante noturno.

Ambos, na sua simplicidade, emanavam experiência e sabedoria. Começaram a trabalhar muito cedo. Francisco veio do nordeste com o pai, deixando em casa a promessa de remessa mensal da quantia que conseguissem. Ricardo é paulista mesmo, de sua infância desconheço, mas certamente deve ter sido mais dura que a minha.
Pessoas como Francisco e Ricardo trabalham muito, ou porque gostam ou porque não tem outra opção, mas sempre porque precisam, porque tem bocas a alimentar. Não escolheram estar onde estão, foram levados pelas duras ondas da vida. Não tiveram chance de escolher entre "Investment Banking" ou "Asset Management", tampouco tem diploma universitário.
Aliás, Francisco foi sempre uma surpresa. Na hora de ir embora, lhe ofereci uma cerveja (que de pronto recusou, sob o argumento de estar dirigindo...atitude louvável, quebra de minhas expectativas preconceituosas) e troquei com ele algumas palavras. Era conhecedor do jazz, sonhava em tocar saxofone! Sabia trechos de músicas de Coltrane, de Lester Young, Charlie Parker...Meu Deus, como eu fui preconceituoso...Confirmo a tese de alguns autores que dizem que a classe média tenta atribuir ao jazz o status de música erudita, restrita a poucos.

"O trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível" (Anatole France)

Enfim...posso me alongar demais, ir por caminhos outros que demandariam outras páginas. A propósito, creio ter me desviado do assunto proposto inicialmente. Paro por aqui.
Não quis com essa pequena digressão desqualificar o trabalho dos estagiários, muito pelo contrário (afinal, espero, serei um deles). Nem dizer que a gente letrada não merece o reconhecimento que tem. Há uns que tem oportunidade e há outros que não. E há aqueles que vão atrás da oportunidade, mesmo não a tendo a priori. É assim que sempre foi e é assim que é.
Só digo, e digo sobretudo a mim mesmo, que às vezes é preciso ser mais modesto e humilde quando olhamos para nós em relação aos outros. Ostentar títulos e currículos recheados de cursos e experiências diversas é saudável até certo ponto.
Lembremo-nos que quem constrói os prédios em que estudamos e as pontes por onde passamos com nossos carros recém adquiridos, e quem prepara o café que tomamos enquanto conversamos sobre as mazelas sociais do país não são os candidatos a "Investment Banking" ou "Asset Management", mas sim pessoas simples como Francisco e Ricardo, que podem muito bem entender de Gramsci ou gostar de música barroca.

É importante sim valorizar o que se tem e o que se conseguiu ao longo da vida, mas sem excessos, pois dessa forma corre-se o risco de incorrer na prepotência.
Que eu seja mais humilde e menos preconceituoso.

domingo, 4 de outubro de 2009

O piano de Chopin


                                                                                                         Fryderyk Franciszek Szopen


Chopin, como é conhecido por nós, nasceu na Polônia em março de 1810 e faleceu em Paris, em 1849, aos 39 anos. Acredita-se que a causa tenha sido a tuberculose.

Comecei a ouvir alguma coisa de Chopin há uns 4 anos atrás. Aconteceu que eu passava pelo sebo, onde tinha ido comprar um livro para o vestibular. Como a mulher não dispunha de troco no momento, concordei em comprar um CD por R$5,00. Com um pouco de pressa, escolhi o de Chopin, que trazia alguns noturnos e polonaises na contracapa. Curioso foi o fato de eu nem saber quem era Chopin, nem mesmo sabia que a "Marcha Fúnebre" era de sua autoria. Mas, por alguma razão, escolhi ele e não outro.

Atribui-se a Chopin o título de romântico, no contexto da periodização da história da música. Não tenho gabarito pra discursar a fundo sobre isso, e acho que nem tentaria se tivesse.
Fica aqui apenas a referência e a minha recomendação aos amantes do piano e de toda a sua particularidade. A música que separei é, justamente, uma das presentes no meu primeiro contato com o polaco. Trata-se de seu Noturno No. 13 (Opus 48 No.1) em Dó Menor, interpretado pelo pianista russo Nicolai Luganski.
É um dos noturnos que mais aprecio, definitivamente. Na interpretação de Luganski, ganha o corpo que tem. É ao mesmo tempo paz e caos, dia e noite, serenidade e raiva, nos levando para onde a mente quiser.

Nas palavras do pianista polaco Arthur Rubinstein:
"Chopin era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma "música romântica", no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!"

O piano é como se fosse uma extensão de seu corpo. Reparem nas expressões de Luganski, em como seu corpo reage a cada nota tocada.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Você é linda"

Hoje é dia 23.
E quem fala por mim é Caetano.




Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol
A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás


Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer


Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal


Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz



Você é linda.
Simples assim.