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sábado, 19 de dezembro de 2009

Summa cum Laude

Não escrevo nestas páginas há muito tempo. É verdade, estive um tanto ausente. Mas deixemos os arrependimentos e os choramingos de lado. Abster-me-ei, portanto, das introduções maçantes, ainda que a contragosto.






"Com a maior das honras" é a tradução da expressão latina que dá nome a esse texto. É essa a honraria que expressa o reconhecimento por obter a mais alta qualificação possível em uma titulação acadêmica. Seu uso não é muito difundido por estas terras, ficando restrito ao círculo anglo-saxão da humanidade.
Lembro-me de quando ganhava o "Parabéns" da professora do ensino fundamental. O esforço não era de todo desgastante, bastava caprichar um pouco na letra, evitar as rasuras...convinha também o truque da maçã e da política do bom samaritano, a fim de mostrar maturidade precoce.
Na universidade, entretanto, os métodos escusos de promoção intelectual parecem ter seu escopo de ação duramente limitado.

O reconhecimento vem.
De fato.
Mas apenas àqueles que realmente o fazem por merecer.

"Summa cum Laude" é algo que não terei no diploma, em absoluto.
Talvez, quem saiba, por obra do destino, ou de algum mal-entendido proposital, saia com alguma singela honraria. Mas duvido que, se vier, venha em latim. Oh, que pena...
A questão central, já um tanto batida, convenhamos, se dá em torno da responsabilidade inerente ao fato de estar numa universidade pública. Não pelo fato de todos pagarmos os impostos que sustentam o funcionamento da instituição (afinal, pagamos também os garis que limpam as ruas, mas a responsabilidade por jogarmos lixo em vias públicas parece ser bem menor, senão quase inexistente), mas pelo fato de haver uma fila enorme de indivíduos potencialmente melhores e pelo próprio papel da Universidade na sociedade.
(Agora, se eu entrei e eles não é ponto para outra discussão. O vestibular não tem como critério a responsabilidade e o comprometimento com a melhoria da Universidade Pública. Ele é do jeito que é, conteudísta e técnico. E não estou fazendo juízo de valor, nem dizendo que tenho coisa melhor a propor.)

Veja...Vivenciar o ambiente da Academia deveria ser um dos períodos mais frutíferos da vida de um jovem que se propõe a estudar a ciência, em suas diferentes vertentes. Poder trocar idéias com os docentes é algo maravilhoso. São todos doutores, muitos obtiveram o título em instituições européias e norte-americanas.
O ambiente acadêmico não deveria ser então efervescente?! Vivo?! Numa constante ebulição de novo conhecimento e de discussão dos problemas mundanos e soluções para esses problemas?!
Ahn...talvez no plano dos idealistas essa coisa toda funcione.
Assim como o "Summa cum Laude" parece cada vez mais distante do meu diploma, a Academia tal como descrita acima parece cada vez mais irreal. De antemão digo que essa é a minha experiência, no âmbito específico da faculdade em que estudo e do curso que faço. Nâo se trata de uma digressão a nível macro.

Tem-se de um lado, uma grande maioria de estudantes (excluem-se alguns poucos que realmente fazem jus ao título, por diversas razões) cuja preocupação principal é conseguir a aprovação nas disciplinas que se propuseram a cursar. A escolha destas, ademais, é baseada no critério da "aprovabilidade" e do quanto ela pode contribuir para a manutenção de uma média ponderada em níveis não vergonhosos. Poucos são os que cursam uma disciplina única e simplesmente em função do interesse despertado pelo programa.

Do outro lado, tem-se um grande número de docentes cuja preocupação principal é a manutenção e expansão de sua produção científica. Prezam, também, pela boa reputação no Departamento e pela estabilidade do vínculo empregatício com a instituição. Nesse sentido, mostram pouco interesse e motivação para com a graduação, "facilitando" o acesso do aluno à disciplina que leciona.

Firma-se então o chamado "pacto da mediocridade", onde o aluno, sob o manto da "aprovabilidade" e da manutenção de sua média ponderada em níveis pífios, aceita e adota uma postura conivente com um docente que dá uma aula de baixa qualidade, com um baixo nível de exigência.
A fim de facilitar a vida, ambos firmam o pacto informal, de modo a prosseguir com as demais atividades do dia-a-dia de forma tranquila.
Ora, isso é lamentável, sem dúvida. Entretanto, pouco se faz para mudar esse quadro, o custo seria alto demais.

É comum ver a gente discursar sobre a qualidade do ensino no país, da pouca vontade política do governo em adotar políticas educacionais mais sólidas...mas poucos olham para o próprio quintal.
Uma vez mais, me enquadro em minhas próprias críticas, mas pouco ajo no sentido de buscar soluções.
Aproveito para expressar meus votos de estima aos que merecem o "Summa cum Laude" em seus diplomas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Preze

Tenho tido pouco do que reclamar. À parte assuntos de importância menor, minha vida tem sido bastante acertada. A família é consideravelmente unida, a faculdade é boa, o dinheiro não é problema crítico... Diferentemente de outras pessoas que tenho conhecido ultimamente, as coisas tem sido fáceis para mim.
Claro, o tempo parece não sobrar, mal dando conta de cumprir as atividades por mim - e para mim - propostas a priori. Mas isso também é decorrente do amplo leque e da abundância de atividades que posso fazer parte.
As notas podem não estar tão azuis quanto gostaria, assim como o esforço por mim desempenhado está aquém do acredito poder oferecer. Mas fica para outros escritos a desilusão com as obrigações e sucessos da trajetória acadêmica.

Enfim, num geral, as coisas vão muito bem.

Não costumo tomar partido da postura otimista com frequência. Raras são as vezes que faço prevalecer o positivo sobre o negativo. Mas recentes conhecimentos e palavras tem evidenciado um pouco a forma como valorava as coisas dessa vida há uns tempos atrás.
Acostumei-me com as salas de ar condicionado, com os veículos novos e com a comida por kilo. Havia esquecido a atmosfera que envolvia um hospital e a proximidade da morte, a simplicidade de um pedreiro, a importância de um prato de comida, o abraço de uma mãe...
Dar valor ao que temos é fácil no discurso. Na ação é preciso sinceridade, integridade. É preciso ser menos egoísta, ceder em certas situações. É preciso presentear, seja qual for a forma do presente. É preciso usar isso para crescer, para fazer mais e melhor. É preciso se colocar no lugar do outro.

O reconhecimento de que há de se atribuir valor a aquilo que consideramos importante tem me acometido com maior intensidade nos últimos tempos.

Devo isso, em grande parte, a você, menina artista, mãe das minhas flores de papel.
A você, que parece me curar de todos os sentimentos ruins.
A você, detentora de uma alegria indescritível, de uma energia contagiante.
A você, que me olha com seu olhar penetrante; e que ri ao esboço de uma careta minha.
A você, que me acalma com um abraço e me abranda a turbulenta espiral de pensamentos da mente.
A você, ladra dos meus sonhos e da minha mente nas horas vagas.
A você, que merece mais valor do que acredito poder dar.


A você, menina linda dos cabelos escuros e da pele clara, do toque suave e do sorriso iluminado, um sincero e alegre obrigado por fazer parte da minha vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Do estágio e da labuta

Há tempos não escrevo alguma coisa. Queria ter escrito sobre isso ou aquiloutro, mas sempre conseguia arranjar a desculpa de tempo. Aliás, queria escrever sobre a falta de tempo e como isso se torna justificativa para me abster de determinadas coisas.
Queria sim, mas ando meio sem tempo...
Escrevo sobre outra coisa então, mais prática, menos existencialista, ainda que quase-filosófica.

Falemos sobre o trabalho, mas sem nos estendermos muito.
Discursos sobre labuta costumam cair ou numa questão religiosa, ou numa questão utilitarista. A intenção é fugir das duas, mas não boto muita fé no sucesso...

Isso me veio à cabeça e às mãos que digitam no teclado pelo fato óbvio de estar procurando emprego. Ou melhor, estar procurando estágio. Aliás, com as facilidades da informática e com a ampla (até demais, por vezes) difusão das empresas de recursos humanos e consultorias congêneres, basta um clique para se candidatar a uma vaga de estágio e alguns e-mails para acompanhar o processo.
As grandes empresas, dispostas a ajudar os jovens no seu processo de formação, abrem programas de estágios complexos e de amplitude considerável. O cartaz é atraente, nos passa a impressão de crescimento.
"Nossa, agora vai, vou finalmente começar a trabalhar, estou avançando na vida!"
Quase que toscamente, olho para os cartazes esboçando suspiros, fantasiando sobre a futura segunda-feira em que chegarei na empresa, dando bom dia aos demais funcionários e sorrindo.

E nas dinâmicas de grupo, gostamos de parecer adultos, exibindo nossos cursos incompletos e nossas vestimentas sociais emprestadas de nossos pais. Fazemos fala firme, com palavras bonitas, determinadas, que não ficam sem saber a que vieram. Quando um outro candidato se porta de maneira indevida, ou fica um pouco mais nervoso do que permite a situação, seguramos o riso, enrijecendo as bochechas, comemorando por alguém ter feito a besteira antes de nós.
É até um pouco divertido, ver aquele grupo de pessoas (de idade média entre 20 e 21 anos, convém citar) ostentando ares de importância e de maturidade.
Gosto de títulos, apesar de mostrar histórico repúdio a adotá-los. Recentemente, candidatei-me a vagas como "Investment Banking" (IB, ou "aibí", para os mais íntimos), "Asset Management" e "Câmbio/Exchange". São coisas importantes, não? E eu não faço a menor idéia do que querem dizer! (exceto pelo caso do câmbio, que me interessa um pouco mais)

"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois" (Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")

De conversas com outras pessoas, levo exemplos mais concretos. Dois são dignos de citação: Francisco e Ricardo.
Francisco é motorista de caminhão. Conheci há duas semanas, quando contratamos a empresa em que trabalha para transporte de pisos intertravados. Sujeito simples, tinha ar de vivido. Gostava de contar histórias, de quando dirigia o caminhão para empresas importantes e de como era apaixonado por aquela vida de estrada. Durante o pouco contato que tivemos, contou-me algumas de suas empreitadas, com a empolgação de um menino que contava pra seus pais como fora o primeiro dia de escola, mas com a sabedoria de um velho que dava conselhos a seus netos. Tinha fala mansa, pausada, sempre olhando para a estrada; dispensava à maquinaria do veículo um trato suave, quase carinhoso.
Ricardo é vigilante noturno do condomínio em que moro. Todos os dias, vem de ônibus de Pinheiros até Osasco à noite, saindo pela manhã, quase junto com o nascer do Sol. Também é um sujeito simples, de poucas, mas certeiras, palavras. Certa feita nos encontramos no ônibus durante a noite, e ele me contava sobre as coisas por que passava como vigilante noturno.

Ambos, na sua simplicidade, emanavam experiência e sabedoria. Começaram a trabalhar muito cedo. Francisco veio do nordeste com o pai, deixando em casa a promessa de remessa mensal da quantia que conseguissem. Ricardo é paulista mesmo, de sua infância desconheço, mas certamente deve ter sido mais dura que a minha.
Pessoas como Francisco e Ricardo trabalham muito, ou porque gostam ou porque não tem outra opção, mas sempre porque precisam, porque tem bocas a alimentar. Não escolheram estar onde estão, foram levados pelas duras ondas da vida. Não tiveram chance de escolher entre "Investment Banking" ou "Asset Management", tampouco tem diploma universitário.
Aliás, Francisco foi sempre uma surpresa. Na hora de ir embora, lhe ofereci uma cerveja (que de pronto recusou, sob o argumento de estar dirigindo...atitude louvável, quebra de minhas expectativas preconceituosas) e troquei com ele algumas palavras. Era conhecedor do jazz, sonhava em tocar saxofone! Sabia trechos de músicas de Coltrane, de Lester Young, Charlie Parker...Meu Deus, como eu fui preconceituoso...Confirmo a tese de alguns autores que dizem que a classe média tenta atribuir ao jazz o status de música erudita, restrita a poucos.

"O trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível" (Anatole France)

Enfim...posso me alongar demais, ir por caminhos outros que demandariam outras páginas. A propósito, creio ter me desviado do assunto proposto inicialmente. Paro por aqui.
Não quis com essa pequena digressão desqualificar o trabalho dos estagiários, muito pelo contrário (afinal, espero, serei um deles). Nem dizer que a gente letrada não merece o reconhecimento que tem. Há uns que tem oportunidade e há outros que não. E há aqueles que vão atrás da oportunidade, mesmo não a tendo a priori. É assim que sempre foi e é assim que é.
Só digo, e digo sobretudo a mim mesmo, que às vezes é preciso ser mais modesto e humilde quando olhamos para nós em relação aos outros. Ostentar títulos e currículos recheados de cursos e experiências diversas é saudável até certo ponto.
Lembremo-nos que quem constrói os prédios em que estudamos e as pontes por onde passamos com nossos carros recém adquiridos, e quem prepara o café que tomamos enquanto conversamos sobre as mazelas sociais do país não são os candidatos a "Investment Banking" ou "Asset Management", mas sim pessoas simples como Francisco e Ricardo, que podem muito bem entender de Gramsci ou gostar de música barroca.

É importante sim valorizar o que se tem e o que se conseguiu ao longo da vida, mas sem excessos, pois dessa forma corre-se o risco de incorrer na prepotência.
Que eu seja mais humilde e menos preconceituoso.

domingo, 4 de outubro de 2009

O piano de Chopin


                                                                                                         Fryderyk Franciszek Szopen


Chopin, como é conhecido por nós, nasceu na Polônia em março de 1810 e faleceu em Paris, em 1849, aos 39 anos. Acredita-se que a causa tenha sido a tuberculose.

Comecei a ouvir alguma coisa de Chopin há uns 4 anos atrás. Aconteceu que eu passava pelo sebo, onde tinha ido comprar um livro para o vestibular. Como a mulher não dispunha de troco no momento, concordei em comprar um CD por R$5,00. Com um pouco de pressa, escolhi o de Chopin, que trazia alguns noturnos e polonaises na contracapa. Curioso foi o fato de eu nem saber quem era Chopin, nem mesmo sabia que a "Marcha Fúnebre" era de sua autoria. Mas, por alguma razão, escolhi ele e não outro.

Atribui-se a Chopin o título de romântico, no contexto da periodização da história da música. Não tenho gabarito pra discursar a fundo sobre isso, e acho que nem tentaria se tivesse.
Fica aqui apenas a referência e a minha recomendação aos amantes do piano e de toda a sua particularidade. A música que separei é, justamente, uma das presentes no meu primeiro contato com o polaco. Trata-se de seu Noturno No. 13 (Opus 48 No.1) em Dó Menor, interpretado pelo pianista russo Nicolai Luganski.
É um dos noturnos que mais aprecio, definitivamente. Na interpretação de Luganski, ganha o corpo que tem. É ao mesmo tempo paz e caos, dia e noite, serenidade e raiva, nos levando para onde a mente quiser.

Nas palavras do pianista polaco Arthur Rubinstein:
"Chopin era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma "música romântica", no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!"

O piano é como se fosse uma extensão de seu corpo. Reparem nas expressões de Luganski, em como seu corpo reage a cada nota tocada.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Você é linda"

Hoje é dia 23.
E quem fala por mim é Caetano.




Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol
A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás


Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer


Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim


Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal


Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz



Você é linda.
Simples assim.

sábado, 12 de setembro de 2009

Pra quê?

Estive pensando em como fico abatido por pouco. Não se trata de uma questão da simples dicotomia entre alegria e tristeza, mas sim de um abatimento mais amplo, extra-pessoal.
Percebo isso em outras pessoas também. Algo como uma perda momentânea da vontade de viver.
Muitas vezes decorrente de causas tolas, poucas vezes de causas realmente relevantes.

A reflexão veio do que conversava com minha mãe dias atrás. Tomando o costumeiro café da tarde- que na ocasião acompanhou uma farta oferta de bolo de fubá- acabamos, em meio a comentários acerca da chuva torrencial da terça-feira última, estacionando no assunto citado no parágrafo anterior.
Ela me contava como havia ficado uma amiga sua após a morte de seu marido. Companheiros de longos anos, eram conhecidos de minha mãe da escola em que lecionavam. Após breve discurso das frustrações que envolvem a rotina de um professor, minha mãe me descrevia como estava sua amiga dias após o falecimento. Sendo o ofício do magistério o que é hoje, não é de se surpreender que as palavras da amiga de minha mãe tenham sido as seguintes.
"Pra quê? Pra quê, meu Deus? Passei tantos anos tentando mudar alguma coisa na cabeça daquelas crianças, enquanto podia ter dado mais atenção pro meu marido! Podia ter vivido mais ao lado dele!"

Buscar as razões para o que fazemos constituí, em geral, mais angústia do que alívio. À parte aqueles que parecem já ter nascido com seus objetivos de vida programados na cabeça, a grande maioria de nós sabe pouco ou muito pouco o por quê de estar nesse mundo e o por quê de fazer o que faz.
Nesse meio tempo de vida que tenho, me agarro firmemente às coisas que considero importantes. Um título, posses materiais, posses emocionais, certezas, dúvidas. Por não saber direito qual é o meu lugar aqui, faço das coisas à minha volta o meu lugar e, aos poucos, vou firmando as bases daquilo que chamo de normalidade. Vou me adequando para seguir o protocolo (in)determinado por fatores quaisquer.
"Pra quê? Pra quê, meu Deus?" parece sintetizar os momentos de abatimento, quando se olha pra trás e o que se vê são cinzas e poeira.
De fato, parece natural dizer que devo buscar mais momentos, mais faíscas no espaço, que representam coisas de maior importância, pra quando olhar pra trás, puder dizer "Valeu a pena!" e não "Pra quê?".
Há um outro lado que me diz para desconsiderar quaisquer razões, por que elas nunca serão encontradas. O que se deve fazer é apenas viver, buscando aquilo que naturalmente se quer buscar, sem nisso se apegar.

Ao pensar dessa forma, me isolo do mundo, subjugando todas as coisas à minha condição. É a expressão initerrupta da força do meu ego. Me coloco externamente às outras coisas, buscando nelas as razões para o meu descontentamento. Sempre achei muito falho, mas nunca consegui me livrar disso. E daí nasce a oscilação entre o alto e o baixo, onde tem sido difícil encontrar o equilíbrio.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Res Publica

Não costumo falar de política no blog. Não que não discuta algumas coisas por entre alguns copos de cerveja com amigos da mesma idade, que, apesar de muito pouco entender do mundo político e do Congresso, esbravejam ao ouvir falar de Sarney e deste ou aquele partido, irrompendo em xingamentos e teses revolucionárias. Geralmente paramos por aí, passando a discursar sobre cinema ou as peripécias de cada um no dia-a-dia.

Angela Guadagnin, em "Dança da Impunidade" ou "Dança da Pizza"


Os recentes acontecimentos envolvendo os senadores da República me chamaram a atenção para um aspecto mais amplo, mais universal. Entre atos secretos, abuso de poder, clientelismos e um quadro asqueroso de impunidade, reside lá no fundo um ponto mais central: o descaso com a coisa pública.
O Estado democrático, sendo o que é, nada mais é do que o reflexo do espírito coletivo da sociedade, dizem alguns. Sendo aqueles que governam e que legislam os representantes do povo, dir-se-á que a culpa das coisas estarem como estão é nossa. Em última análise, correta do ponto de vista teórico, a soberania reside nas mãos do povo. A própria palavra democracia traz isso em sua etimologia.
Pois bem, acontece que na prática a teoria é outra. E o povo, tal como se encontra hoje, de soberano não tem nada. Essa discussão pode se estender por mais copos de cerveja que as geladeiras do bar podem suportar.

Deixando essa questão um pouco de lado, o que quero enfatizar é o ponto central, o descaso com a coisa pública. Para além da questão da representatividade e do funcionalismo público, o problema se estende também aos fatos mais corriqueiros do cotidiano. Pouco ou quase nenhuma é a consideração que a maioria dos indivíduos tem pelo coletivo. Seja o ato de jogar lixo na rua ou de desviar a verba destinada à merenda das escolas municipais, o que se costuma ver é quase sempre interesses particulares sobrepujando a boa conduta perante a coletividade.
Obviamente, comparar o ato de jogar lixo na rua com o desvio de verbas públicas é bastante forçado, mas a essência permanece a mesma.

Como membro integrante de um centro acadêmico, vejo, numa perspectiva micro, como a estrutura de poder pode ser distorcida. O uso da "máquina pública" visando a satisfação de interesses privados chega a um ponto que torna-se "natural". A visão de que, ao ocupar um cargo de representatividade, um sacrifício até certo ponto, o indivíduo pode dispor de privilégios pelo serviço que "presta" é comum. É algo como um pacto unilateral, onde quem governa coloca-se acima de quem é governado, assumindo privilégios e regalias para si. Passa-se por cima das regras, atirando ao lixo o legalismo e as cartas escritas para manter a imparcialidade e a igualdade jurídica.

"Ah, sou tal e tal, tenho direito a cortar fila ou não pagar por determinado evento".
Eu também gosto dessa idéia, quem não gosta?

Certa feita, uma professora contou uma história que ilustra bem esse fato no Brasil. Por ocasião da Copa do Mundo de 1994, quando a seleção brasileira foi a campeã, os jogadores trouxeram consigo alguns artigos comprados no exterior, mas que excediam o limite de valor possível de ser importado. Ao serem barrados no aeroporto, os assessores entraram em contato com a Receita Federal. O então responsável pela liberação negou aos jogadores a entrada no país, exigindo que pagassem os devidos impostos. A notícia chegou ao gabinete do presidente, na época Itamar Franco, que, passando por cima do diretor responsável na Receita, liberou a entrada dos jogadores com a muamba adquirida. O funcionário da Receita renunciou ao cargo.

É o famigerado "jeitinho brasileiro". Estou longe de ser exceção, antes que o leitor pense que a intenção do texto seja me isentar de alguma responsabilidade. O "descaso com a coisa pública" nesse país é enorme, a lei é lei para alguns, não passando de "juridiquês" bem escrito para outros. À maioria resta a possibilidade de indignação, poucas são as vezes em que passa disso. A persistente impunidade é ainda mais incômoda.

Bom...isso rende, pelo menos, boa matéria para as conversas de bar.


"Garçom, mais um chopp aqui, geladinho, por favor".

sábado, 22 de agosto de 2009

Citação de Sociologia

Interessante é a perspectiva sociológica. Reproduzo abaixo um trecho do livro "Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística", de Peter Berger. O trecho é parte do capítulo 4 do livro, onde o autor observa a sociedade como uma "gigantesca prisão", tal como trata a concepção de Durkheim. É, portanto, constituinte de um raciocínio maior e não deve ser tomado como único ou isolado.

"A sociedade, como fato objetivo e externo, manifesta-se sobretudo na forma de coerção. Suas instituições moldam nossas ações e até mesmo nossas expectativas. Recompensam-nos na medida em que nos ativermos a nossos papéis. Se saímos fora desses papéis, a sociedade dispõe de um número quase infinito de meios de controle e coerção. As sanções da sociedade são capazes, a todo momento da existência, de nos isolar entre os outros homens, expor-nos ao ridículo, privar-nos de nosso sustento e nossa liberdade e, em último recurso, privar-nos da própria vida. A lei e a moralidade da sociedade podem apresentar complexas justificativas para cada uma dessas sanções, e a maioria de nossos concidadãos aprovará que sejam usadas contra nós como castigo por nosso desvio. Finalmente estamos localizados na sociedade não só no espaço, como também no tempo. Nossa sociedade constitui uma entidade histórica que se estende temporariamente além de qualquer biografia individual. A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós. Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo. Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história."

Interessante, não?
É bom respirar um pouco esse semestre o ar livre das matematizações.

sábado, 15 de agosto de 2009

Pesaroso

Acordei hoje arrependido. Um arrependimento agudo, fino como a ponta de uma agulha, daquelas que me aplicavam nas brancas nádegas há alguns anos atrás.
Calçar o chinelo de palha ao sair da cama, lavar o rosto na água gelada, engolir o café na xícara rachada. Tudo era lembrança. Tudo foi fotografia.

Revejo o passado, tentando entender o presente. Tolice, dizem. O que aconteceu não pode ser mudado, não pode ser apagado.
Quem sabe? As ações do homem podem transpor as barreiras do tempo, podem seguir a direção anti-horária; não contra, mas com os ponteiros do relógio, tal como o velho e sua sombra projetada na calçada.
A que recorrer quando falta a coragem de assumir o erro? Não há do que me desculpar, não há sentido em pedir perdão, mas parecem ser "me desculpe" as únicas palavras cabíveis à situaçao. Ao primeiro olhar certamente abaixaria a cabeça, num gesto multifacetado, de significado obscuro.
Estar adormecido na arte parece ser um bom título, um pouco mais leve, menos repressivo.

Diante da incerteza, tomo mais uma xícara de chá e me ponho a investigar os meios de fazer o contato novamente. Frações de tempo depois, me ocupo de outras canções. Até o dia em que acordar arrependido novamente, quando tudo será lembrança uma vez mais.
Sua flor é o descanso, a repousar na estante. Graças a ela, tenho todo dia a lembrança de seu sorriso e de suas mãos, que tão cuidadosa e suavemente fizeram do papel uma rosa.


"Da hipótese tiro a síntese, e da síntese tiro a antítese."

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do respeito e da pesca pobre

Uma vez mais pude comprovar a minha inépcia na arte de pescar.
Parece fácil, basta colocar a isca no anzol e lançá-lo à água, esperando que o pedaço de isopor dê algum sinal positivo. Mas minha contribuição ao montante de peixes no final da tarde fica só no ato de cavocar a terra e dela tirar algumas minhocas.
Passar tardes com os avós é recompensador, para dizer o mínimo. Ouvir suas histórias, suas palavras de sabedoria...
"É preciso fazer silêncio, senão o peixe não vem, filho."

Atentamente observava a habilidade com que meu avô manejava a vara de pesca. Como numa dança, olhava, tirava e recolocava na água as sete varas com que pescava simultaneamente. Pescar para ele é um descanso, um repouso. Por mais que os peixes não venham, ele ficaria sentado à beira do rio, lançando suas varas.

Tudo completava a pintura, o quadro que compunha a cena. O vento batendo na superfície da água, esboçando leves ondas, numa simetria quase geométrica, o som das aves nos céus, a canção entoada e o Sol de fim de tarde, que pintava nas nuvens tons de vermelho e laranja.
Ah...que delícia estar ali, sentindo na própria pele a efemeridade e a eternidade de uma tarde diante de um rio. E era isso que era, uma tarde diante de um rio, nada mais que uma tarde diante de um rio.

"E então, filho, como está a faculdade?"
"Ah, vô, tá bem, normal."
"Hm...você tá fazendo francês né?
"É."
"Tá gostando? Olha o peixe na sua varinha."
"Tô gostando sim. Ah, droga, perdi..."
"Você puxou muito rápido, tem que esperar ele prender a boca na anzol."

Puxei tão rápido a vara da água que o anzol enganchou numa árvore atrás de mim. Enquanto desfazia o trabalho porco, meu avô tirava mais três tilapias dos anzóis. Era como se ele soubesse o momento exato, como se enxergasse através da água escura da represa. Devolvera um dos três, sob o argumento de estar muito novo.

"Então filho, aproveita agora essa época pra fazer as coisas que você tem vontade."
"Ah sim vô, estou aproveitando."
"Porque depois, quando você for ver já foi. Quando você chega no fim da vida é que vê o quanto deveria ter feito."

Parou por ali. Eu não tinha o que dizer, fiquei apenas aproveitando o momento.

"A bondade é o princípio do tato, e o respeito pelos outros é a primeira condição para saber viver" - Henri Frédéric Amiel


E hoje, data dedicada aos pais, a família se reuni para um almoço na casa dos avós. Foi, como sempre, um almoço como outro qualquer. Em verdade, pouca diferença faz se nos reunimos num dia das mães, num dia dos pais, num Natal ou numa Páscoa. A cena é sempre a mesma, os papéis se repetem, vontades são suprimidas. É irritantemente visível o tratamento que dispensamos a nossos pais e avós.
Aos dias determinados pelo calendário correspondem ações determinadas pelo bom senso. Portanto, no dia dos pais, desejamos a nossos pais um feliz dia dos pais - e assim sucessivamente. Correspondem também reuniões familiares (longe de se caracterizarem como tal). Quem faz a comida é a avó, quem senta na cadeira da ponta é o avô. Mas quem se serve primeiro é quem consegue.
É absolutamente impressionante o fato de ninguém se preocupar em, ao menos, verificar como estão meus avós. Se estão sentados, se estão com talheres, com copos. Se querem arroz, se querem um pedaço do frango, se querem algo mais. Não. Todos correm buscando garantir suas próprias porções de alimento. Servir? Ver se está tudo bem?

Talvez esteja exagerando, talvez esteja me colocando como "aquele que entende das coisas". De fato, posso não conhecer a relação de meus avós com meus tios (relação que tem o dobro da minha idade, diga-se de passagem). Mas reparo no que vejo, e o que vejo são demonstrações de desrespeito e até descaso em algumas circunstâncias.
Não sei se posso soltar a máxima do "não se respeitam mais os mais idosos". Fato é que o que costumo ver nos almoços de família é, para usar de eufemismos, incômodo. Falo pelo meu caso, por aquilo que conheço, longe de querer soar universal. Mas a coisa parece se reduzir a um "feliz dia dos pais" e a um presente. Os pais merecem muito mais do que isso, os avôs merecem o dobro. Respeito é o mínimo, e sempre vai bem uma pitada de consideração e preocupação.

Deveríamos aprender mais com os mais velhos. Deveríamos respeitar mais os mais velhos. Sobretudo quando o velho é seu pai.
Esse pode ser o último dia dos pais que passamos todos juntos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (5/5)

"Na vida pessoal

O professor de Psicologia da Universidade de Harvard Daniel Gilbert tem uma teoria bastante interessante sobre por que tendemos a deixar escapar tanta expectativa pelas frestas dos nossos desejos. Segundo ele, tentamos o tempo todo prever os acontecimentos da vida. Desde o momento que abrimos os olhos de manhã conjecturamos como será nosso dia no trabalho, o trânsito, o encontro à noite. E, de acordo com Gilbert, isso traz um ganho para a sensação de felicidade.

Antecipar nossos prazeres é uma forma de prolongá-los. Começar a pensar naquela festa uma semana antes nos permite “experimentá- la” por sete dias, em vez de curti-la só no sábado. Prever a viagem de férias é uma forma de se entregar ao merecido período de recesso antes mesmo de bater o ponto e pegar o avião (além de ser um estímulo a mais para as horas de trabalho, claro).

A ressaca desse processo, porém, é que não somos muito bons em prever nada realisticamente. Assim, quando começamos a pensar na festa uma semana antes, vamos criando uma expectativa grande sobre ela, achando que vai ser um momento de alegria genuína. No entanto, quando a festa chega, ela pode nem ser tão legal assim – e aí o sentimento de frustração vem à tona.

“Os acontecimentos futuros que nossa mente antecipa como grandiosos são frequentemente uma grande decepção”, escreve Gilbert no livro O que nos Faz Felizes. E isso vale, óbvio, não só para festas, mas também para os relacionamentos, empregos, objetivos de vida. “Como não conseguimos prever o quão felizes nos sentiremos com algum acontecimento futuro, criamos uma série de fantasias sobre nossa concepção de felicidade.” E elas, na grande maioria das vezes, não se concretizam. Aí, haja decepção!

Mas, além de inevitável, criar expectativas é indispensável para nos motivar a viver. Mesmo que muitas vezes quebremos a cara com as ilusões que criamos, sem elas seria difícil levantar da cama de manhã. Se você não imagina que seu dia possa ser bacana, dificilmente vai querer enfrentá-lo. Ou se já esperar que a festa vai ser ruim, não vai encontrar uma razão sequer para se motivar a ir. Sem expectativas, nos tornamos apáticos, sem vontade. Exatamente o mesmo sentimento que acomete os que sofrem de um mal como a depressão, por exemplo, quando tudo parece desinteressante e desanimador.

Esse é o resultado, também, de decepções que enfrentamos ao longo do nosso caminho. Algumas parecem ser tão doídas que nos deixam sem qualquer fio de esperança. Principalmente quando nos decepcionamos com nós mesmos. Porque daí, além de enfrentar a desilusão, temos que encarar também a culpa. “Por que fui apostar tanto nisso?” “Eu sou mesmo um idiota de ter acreditado naquilo.”

A saída, nesses momentos, é tentar desanuviar a mente e perceber a constatação humilde e realista dos fatos. Sem exageros, sem estardalhaços. Assim, as dimensões de uma decepção como essa se reduzem às de um fato totalmente possível a pessoas normais como eu e você, que não temos obrigação (nem possibilidade) de ser perfeitas. Então, dê-se um desconto. Criar expectativas não é uma escolha, mas um caminho que temos que seguir. O melhor a fazer é aproveitar o trajeto da forma mais tranquila e plena. Assim, a chegada tende a ser sempre compensadora."


Essa foi a quinta e última parte da série. E também a que mais elucida, na minha opinião.
Nunca tinha parado pra pensar no que disse o professor de Harvard. Digo, já tinha me dado conta de que antecipo o que acontecerá ao longo do dia, mas nunca tinha relacionado isso com "ganho para a sensação de felicidade" ou como prolongamento da sensação de prazer. E, por extensão, isso afeta todo o conjunto da obra de que trata esta série.
O exemplo da festa foi mais do que ilustrativo. Tudo começa já na propaganda da festa: "Open Bar de blá, blá, blá, blá! Performances ao vivo! Mulheres vip até a meia-noite!", e por ai vai. Conjectura-se todo o andamento da festa, planejam-se falas, olhares, abordagens. No dia da festa, come-se bem, toma-se um banho mais caprichado, utiliza-se o perfume empoeirado e a roupa bonitinha. Com tantas preliminares, a coisa deveria ser boa. No entanto, ao menos no meu caso, observo o contrário. Haha. E quando me perguntam como foi a festa, brado afirmando ter sido "muito loca".

É engraçado na verdade...agora vejo o quanto sou metódico no meu trato com o dia-a-dia, talvez em função de estar dentro de uma rotina ou talvez em função da invenção do relógio. Planejar o dia se tornou natural e criar expectativas sobre esse planejamento se tornou automático. Sei que todo o dia pego o jornal na portaria da faculdade, e todo dia espero a mesma reação do porteiro. Sei que ao chegar em casa vou sentar no sofá e teimosamente circular pelos canais da televisão, e todo dia espero encontrar algum programa interessante.
Prego tanto o desapego, a despreocupação com o tempo, a vivência do presente, o já desgastado carpe diem, mas faço tanto o contrário...sempre tentarei me lembrar que antecipar felicidade também pode significar adiar e potencializar sofrimento. Se a felicidade vir, devo aproveitá-la enquanto durar, pois as coisas acontecem quando acontecem e é assim que é. Mas se o sofrimento vier, devo suportá-lo enquanto durar, pois as coisas acontecem quando acontecem e é assim que é.

Gostei da passagem "criar expectativas não é uma escolha, mas um caminho que temos que seguir", na minha opinião a melhor do texto.


ps. Os textos foram retirados de http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/079/grandes_temas/conteudo_450012.shtml.

sábado, 25 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (4/5)





"Nos relacionamentos

Não há paixão sem idealização. O escritor francês Stendhal já sabia disso. No verão de 1818, ao fazer um passeio pelas minas de sal de Hallein, na Áustria, ele ficou encantado com o que viu. Os mineiros costumavam recolher galhos secos e sem folhas a armazená-los em locais de trabalho abandonados. Depois de um tempo, pelo efeito das águas saturadas de sal, esses galhos, após secarem, iam se cobrindo de cristais salinos, que lhes davam um efeito belíssimo. Os pedaços ficavam tão recobertos de sal que pareciam diamantes. Era quase impossível reconhecer que se tratava de galhos.

Stendhal percebeu ali uma metáfora para o amor romântico: no momento em que começamos a nos interessar por uma pessoa, não a vemos mais como ela realmente é, mas como nos agrada vê-la. A percepção real é tomada por idealizações que a transformam em poesia aos nossos olhos. “Dessa forma, sempre exageramos as qualidades da nossa paixão e acabamos subestimando as falhas e as características negativas que ela possa ter”, diz o psicólogo Thiago de Almeida, especialista em relacionamentos amorosos.

Esse poço de virtudes do nosso bem-amado vai se esvaindo conforme o conhecemos melhor. E, exatamente por termos pintado a pessoa como ideal demais, quando a descobrimos real ficamos decepcionados. O campo dos relacionamentos é o que mais carrega nos traços de uma idealização excessiva, por isso as frustrações amorosas são as mais sentidas. O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (como dizia Vinícius) porque ele é idealizado como perfeito demais para se desfazer. Nossa primeira noção de amor vem da nossa mãe, do amor absoluto que não tem fim. “E alguns continuam a exigir o incondicional amor materno, fantasiado e disfarçado em relacionamentos amorosos adultos”, escreve a psicoterapeuta Judith Viorst no livro Perdas Necessárias. Na vida real, os relacionamentos acabam, se desfazem – aposto que todo mundo tem aí algo para contar sobre o fim de uma paixão.

Porém, o lado bom dessa história toda é que, se superada a idealização, o contentamento romântico tende a amadurecer em uma união profunda. O que era pura “cristalização” dá lugar a um relacionamento real. Para que ele sobreviva às expectativas fantasiosas, é preciso aceitar que os galhos não são cristais de sal. Deve-se gostar dos galhos justamente porque eles são galhos – independentemente da forma como estejam recobertos.

A melhor maneira de evitar desilusões é planejar com realismo suas metas.

Passada essa fase inicial, a próxima também tende a ser complicada: fazer o relacionamento dar certo a despeito das perspectivas que criamos com relação ao parceiro. Não existe segredo para isso, mas os especialistas aconselham que a honestidade pode ser uma boa saída para evitar frustrações. Ponha as cartas na mesa: deixe claro o que espera da relação e o que está disposto a fazer para ela dar certo – e em que não consegue ceder. Dessa forma, as expectativas tendem a ser mais realistas e não caímos na tentação de querer presumir o que o outro pensa ou deseja. Nem querer que o outro adivinhe o que esperamos dele."


Nesse temos de tudo, um escritor, um psicólogo, uma psicoterapeuta e, logicamente, Vinícius, que não poderia faltar quando o tema é esse.
Concordo com a quase totalidade do que foi dito. Apesar de (achar) seguir o manual da não-idealização e do realismo, não sei até ponto posso me ater a ele.
Ela é perfeita pra mim, e não sei quando vai deixar de ser. Talvez aconteça um dia, talvez não. Quem sabe?

Dos relacionamentos que já tive tirei lições das expectativas e frustrações. É como diz o texto, não podemos esperar que o outro adivinhe o que estamos pensando, o que estamos querendo, nem o que estamos planejando. A insegurança e o medo da coisa toda acabar fecham os olhos para o que poderia ser vivido, e muitas vezes acabamos com uma lista das coisas que achamos que temos que fazer, como se fôssemos seguir um manual, uma receita.
É preciso saber ceder, nem dar de menos e nem dar de mais. Mas é sempre preciso estar lá pra quem se ama.

Talvez o amor, como dizia Vinícius, seja mesmo a coisa mais triste quando se desfaz.
E ouçamos à voz de Gal Gosta.
 


Eu amei,
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais,
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

Vida Simples: Grandes expectativas (3/5)

"No trabalho

Depois de 24 anos trabalhando em uma multinacional, Maria Cristina Scarpato resolveu deixar para trás a posição de gerente de qualidade e uma oferta de promoção para investir uma nova empreitada: abrir sua própria empresa. Apesar de ter chegado a um patamar que nove entre dez executivos almejam, ela se sentia estacionada na função. “Minha maior frustração era perceber que poderia ficar acomodada ou me tornar uma especialista que só serviria para um tipo de atividade para o resto da minha carreira”, diz ela.

Maria Cristina nadou contra a maré das expectativas profissionais da maioria das pessoas. Afi- nal, convencionou-se acreditar que o padrão para ser bem-sucedido está justamente em ter uma boa posição em uma grande empresa, com ótimos benefícios e, claro, um excelente salário.

Os sociólogos estudam algo que chamam de frustração social: uma decepção que não está ligada a uma situação objetiva, mas a uma percepção coletiva que se tem dela. Existem padrões sociais para tudo, inclusive para nossas carreiras. Muitas pessoas levam esses padrões a sério demais, e tendem a se sentir desiludidas – fracassadas até – se não os alcançam. “O padrão de cada um é determinado individualmente, cada pessoa tem um desejo, um objetivo diferente para sua vida”, afirma Emerson Ciociorowski, coach e autor do livro Executivo – O Super-homem Solitário.

A meta de Maria Cristina era compartilhar seus conhecimentos com outras pessoas, outras empresas. Hoje ela está muito mais satisfeita por ter batalhado pelo conceito que ela tinha de realização. “Agora viajo muito, algumas vezes tenho saudades de 30 dias de férias, mas sinto-me renovada, muito valorizada, útil e reconhecida”, afirma

Não é todo mundo que se sente assim. A principal frustração que assola os escritórios e empresas mundo afora está ligada ao reconhecimento. Ou, melhor dizendo, à ausência dele. Isso acontece, segundo Ciociorowski, por conta da falta de objetividade do que se espera de um funcionário. Como não sabe o que exatamente a empresa quer dele, ele acaba se esforçando demais e faz uma série de coisas que, de repente, não têm o menor valor. E isso gera uma decepção muito grande.

O primeiro passo para evitar essa sensação é saber o que a empresa almeja de você. Vale um papo franco com seu chefe para entender quais as suas reais atribuições. Se você quer ser promovido, mas isso não acontece, questione: que atributos são exigidos para o cargo? Será que tenho todas as habilidades e talentos necessários? “Temos que assumir a responsabilidade sobre nosso próprio desenvolvimento. Não adianta ficar desmotivado, culpando o outro por suas frustrações”, afirma o consultor.

A melhor maneira de evitar desilusões é planejar com realismo suas metas. O importante é procurar trabalhar em empresas que tenham os mesmos valores que os seus – ou até ser autônomo ou abrir seu próprio negócio se estiver difícil encontrar alguma empresa que se enquadre no que você acredita. Nossos valores são a base de todas as nossas escolhas. Ir contra eles é certeza de frustração."


Apenas dando continuidade à série. Não tenho muito o que falar aqui...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (2/5)




"Na família

É na infância que lidamos pela primeira vez com nossas frustrações: ter que largar a chupeta, não ganhar aquele brinquedo que pedimos, perder a atenção irrestrita com o nascimento do irmão. Nessa fase aparece em nosso caminho uma palavra chata que vai nos perseguir para sempre: “não!”. E é justamente a relação com ela que vai definir nosso controle emocional diante das negativas da vida. “As pessoas que ouviram pouco ‘não’ na infância têm muito mais dificuldade de aceitar uma recusa quando se desenvolvem e se tornam adultas”, afirma a filósofa e educadora Tânia Zagury.

Muitos pais evitam dizer “não” como forma de resguardar o filho de se frustrar. Como se fosse possível impedir que a criança se sinta desiludida vez ou outra. O grande problema é que, se uma pessoa não aprende desde cedo a conviver com a decepção em coisas cotidianas, vai ter sérias dificuldades para lidar com o fim de um relacionamento ou não ser aceito em um trabalho.

Na mesma medida que é importante ensinar os filhos a conquistarem o que querem, é imprescindível também mostrar que nem tudo que se quer pode ser conquistado. Nesse sentido, a frustração coloca nossos pés no chão, mostrando que a realidade dos fatos, na maioria das vezes, está muito longe daquela que idealizamos. “A frustração é pintada como algo ruim, que se deve evitar. Ao passo que, se bem trabalhada, ela pode ser bastante positiva para o crescimento pessoal, para o amadurecimento psíquico e o aprimoramento das relações de um indivíduo”, diz Tânia.

Desde pequena Melissa Rondon teve que conviver com a decepção de não conhecer o pai. Quando a mãe dela ainda estava grávida, eles brigaram e ele nunca mais apareceu. Aos 12 anos, ela resolveu que queria conhecê-lo, tentar resgatar uma relação mesmo que tardia. Com a ajuda de uma tia, ela conseguiu contatá-lo e marcaram um encontro. Mas de novo teve que enfrentar a frustração. O pai tinha outra família e não estava disposto a assumi-la para a esposa e os novos filhos. A rejeição foi um balde de água fria na expectativa de Melissa. “Quando o procurei, achei que teria um pai de verdade, que me ligasse, que pudesse sair comigo para conversar, que se preocupasse. Não alguém que quisesse uma relação assim, escondida”, diz.

Hoje, aos 25 anos, Melissa garante que superou bem a desilusão justamente por não ter idealizado tanto o pai. “Não podia esperar muito de alguém que nunca se esforçou para me conhecer.” É comum as crianças verem seus pais e mães como deuses, infalíveis e perfeitos. Mas, à medida que crescem, percebem que essa imagem não é real, que eles têm defeitos, limitações – e se frustram. Nas relações familiares, as decepções estão principalmente ligadas a padrões que criamos. O pai que quer que o filho seja algo que ele não é, o filho que espera que a mãe seja mais carinhosa. “O segredo é aceitar que nossos familiares são pessoas com visões diferentes das nossas idealizações”, aconselha o terapeuta familiar americano David Niven. E ele conclui: “Não estrague sua vida familiar estabelecendo padrões que você criou para ela”."


Sempre que converso de família com alguns de meus amigos, surgem citações a Freud. Um ou outro muito raramente arrisca citar algum outro autor das coisas da psique. Eu, como bom estudante de economia, não entendo absolutamente nada de Freud ou das ciências da psique. O máximo que chego a discursar sobre a natureza humana trata da racionalidade maximizadora do homem. Que vergonha meu Deus.

Pois bem, acho que no que concerne à família não tive tantas expectativas e/ou frustrações. Não que nunca tivesse passado pela minha cabeça o sentimento de querer que meu pai ou minha mãe fossem diferentes em alguns aspectos. Mas penso que isso não afetou substancialmente a maneira como os encarava. Creio que aprendi - e já há algum tempo - a aceitá-los como são. Já baseio minhas ações em expectativas reais, fruto de curtos 20 anos de convivência com eles. Sei, ao menos parcialmente, até onde posso ir e como posso ir.
Mas também nunca tive uma experiência como a da Melissa da reportagem, meu pai sempre esteve ao meu lado.

Tenho expectativas, aí sim, diante da minha capacidade de formar uma família. E certamente terei frustrações. Coisas que hoje considero negativas na minha relação pai-filho podem ser repetidas no futuro. E pior que junto dessa frustração vem o sentimento de culpa.
Mas antecipar isso parece forçar um pouco a barra, afinal de contas quem sou eu pra ter certeza do que é bom ou ruim numa relação familiar?
Mas como diz Álvaro de Campos naquele trecho de Tabacaria, "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

E o sonho de ter uma família unida e que se dê bem é um dos meus sonhos nesse mundo. Independentemente das expectativas e das frustrações.

sábado, 18 de julho de 2009

Vida Simples: Grandes expectativas (1/5)

Atrasei no horário marcado para o corte de cabelo. Tive que aguardar então uma brecha na conturbada escala de horários em cima da mesa, nada mais justo. Sentei, olhei para os lados...olhei pra baixo, pra cima...
A fim de fazer o tempo passar, pedi cordialmente uma xícara de café. Mas o tempo não passou. A coerção da espera e das pessoas conversando salão adentro foi grande e me forçou a folhear as revistas dispostas na estante. As opções eram vastas: Caras, RSVP, uma Saúde e uma Vida Simples.
Abri a Saúde, mas fechei alguns segundos depois, a reportagem sobre alimentos cancerígenos me irritou. Como relutei desde pequeno em abrir uma Caras, peguei a Vida Simples.
De capa provocativa (a pergunta era "Você está frustrado?"), a revista me atraiu com uma reportagem sobre expectativas e frustrações, tema recorrente nos posts desse blog.

Segue a reportagem, que se divide em áreas da vida moderna: vida pessoal, relacionamentos, trabalho e família. O texto é meio auto-ajuda...mas quem não aprecia um auto-ajuda de vez em quando?

"Grandes expectativas

Administrar nossas esperanças e perspectivas diante da vida pode ser uma boa forma de lidar com as frustrações que invariavelmente vão surgir em nosso caminho.

Existe uma lição universal: nem tudo na vida acontece da maneira como queremos ou desejamos. Alguns aprendem isso no dia a dia, vendo que o trânsito não vai andar só porque se está com pressa, que aquele filme nem sempre vai ser bom porque se apostava que ele fosse, que as pessoas de quem gostamos vão nos magoar de vez em quando, mesmo que quiséssemos evitar isso.
Já outros têm que passar por situações mais delicadas para constatar a mesma verdade: ver um relacionamento acabar, perder alguém querido, ser demitido depois de anos de dedicação à empresa. Mas ninguém, em todos esses casos, discorda de como é difícil encontrar obstáculos no caminho da realização de um desejo. Mas, se a gente sabe disso de cor e salteado, por que é que ainda sofremos tanto quando temos uma vontade frustrada?

A resposta está no fato de que tendemos a idealizar demais as coisas, criar grandes expectativas sobre tudo. É normal – e até imprescindível – nos rodearmos de expectativas. O problema é que, na maior parte das vezes, essas expectativas são tão elevadas que o confronto com a realidade é uma desilusão. E acabamos sofrendo com isso. No entanto dá, sim, para tolerar melhor a frustração que surge desse processo. É sobre isso que vamos falar a seguir.

Mas espera lá: antes que você crie esperanças demais sobre essa reportagem, vale deixar claro que nosso objetivo não é dar respostas prontas. Até porque cada um lida com as suas decepções de maneiras diferentes. Queremos mostrar que dá para colocar as frustrações para trabalhar a nosso favor no trabalho, na vida pessoal, nos relacionamentos e até nas relações familiares.
Tudo para você chegar ao fim do texto refletindo melhor sobre o que fazer quando algo contrariar suas expectativas. Sem grandes decepções."


Vou arriscar algumas palavras ao final de cada citação. Essa na verdade é a introdução da reportagem, parte da seção "Grandes Temas".
A pergunta indaga por que sofremos quando vemos uma vontade frustrada, mesmo tendo conhecimento de que as coisas não acontecem como queremos ou desejamos. A resposta replica dizendo que o problema é o fato de tendermos a idealizar demais as coisas, a criar grandes expectativas sobre tudo. Segundo o autor, rodear-se de expectativas está dentro da normalidade. Ainda bem.

Mas a pergunta não cala. Por que nos frustramos? Por que, mesmo sabendo que as coisas podem não acontecer como queremos, nos frustramos? Talvez a resposta esteja na própria pergunta.
Sim, sabemos que as coisas podem não acontecer da maneira como queremos que aconteçam. Mas isso não nos impede de querer que elas aconteçam da forma que queremos...

Vejamos, nos próximos posts, o que a reportagem tem a dizer sobre família, relacionamentos, trabalho e vida pessoal.

domingo, 12 de julho de 2009

Kozure Ookami

"Quando não se há mais nada a perder, quando tudo o que possuímos nos é tomado e tudo em que acreditávamos nos é negado, certamente somos obrigados a rever certos princípios. Mais do que frustração ou desespero, a sensação mais visceral é a necessidade de identificar o que é realmente necessário para a vida. Nem luxos, nem posição, nem reconhecimento, nem mesmo o pão de cada dia. O que importa, de fato, é a motivação que nos faz seguir adiante. Contentar-se apenas em sobreviver e, com isso, ter somente uma pseudo-vida? Ou estabelecer uma meta, mesmo que irreal ou inalcançável, para, ao menos, ter com o que sonhar?"


Itto Ogami teve sua mulher assassinada e seu cargo político comprometido. Era executor do shogun, um dos cargos de maior prestígio no Japão do sec. XVII. Tendo o nome de sua família desonrado, Ogami escolhe trilhar o meifumado, literalmente o caminho do inferno, e viver em meio à morte e à vingança. Seu filho, Daigoro, também se vê diante de uma escolha.

"Daigoro! Você deve achar seu próprio caminho! Escolha a dotanuki e junte-se ao seu pai na estrada do assassino. Escolha a temari e eu te mandarei para junto de sua mãe em yomi, a terra dos espíritos."


O pequeno Daigoro escolhe a espada, e sem hesitar passa a seguir o pai e a trilhar o meifumado. A relação dos dois é uma das coisas que mais impressiona na história.

"Um pai conhece o coração do filho, como só o filho conhece o do pai. Um estranho não entenderia", diz o ex-executor.


Há capítulos só sobre o filho, sobre como ele lida com situações adversas. É praticamente impossível descrever a profundidade e a genialidade com que o autor desenvolve a história. A descrição psicológica das personagens é fantástica, ainda mais aliada aos traços únicos de seu desenho. A fidelidade histórica e a seriedade da abordagem impressionam. Ainda mais a mim, com raso conhecimento de histórias em quadrinhos.

O trecho citado no topo do post é parte da introdução do volume 5 de "Lobo Solitário", uma verdadeira obra de arte sob a tutela de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Estou no sexto dos 28 volumes e já estou maravilhado, realmente vale a pena.
Os autores vão além do arroz-com-feijão quando se trata de contar histórias de samurai, dissecando a fundo seu código de conduta e seus valores. Por se tratar de relativa paz interna no Japão (leia-se estabilidade política), a classe dos samurai passava por uma transição, onde as artes da espada perdiam importância militar, mas ganhavam importância social. Em meio a esse quadro, um grande número de samurai perderam seu "emprego", ficaram sem senhor, passando a vagar pelas ruas e dedicando-se a outras atividades. Itto Ogami é um desses ronin (samurai sem senhor), e passa a atuar como matador contratado por terceiros, apelidado de lobo solitário.
Até que ponto vai o bushido e a honra dos samurai? Será que se trata apenas de escolher entre o bushido ou o meifumado? Esses são questionamentos trazidos pelos autores, e que em momento algum são levianos.
Além dessa questão, há também a belíssima aula de história dada por essa obra. Questões políticas, econômicas e sociais podem ser apreendidas durante a leitura. O retrato dos costumes e da estrutura social do Japão daquela época é minuncioso, e melhor do que muitos livros de história, creio eu.

Enfim, fica a recomendação aos interessados.




"O homem virtuoso diz:
a alegria mora no lugar onde ela é gerada,
a gratidão jamais se esquece de suas origens,
os antigos já diziam.

O lobo morre e volta a sua cabeça para o morro.
Isso é chamado clemência."

terça-feira, 7 de julho de 2009

Impressões incômodas

Frédéric Chopin - Nocturne No.16 in EbM Op.55 No.2

 


Há pelos cantos da cidade gente de toda sorte. Uns com mais, outros com menos.
Da janela do ônibus observo de passagem os becos e cantos das ruas de São Paulo. Numa mesma viagem vê-se madames, judeus, pobres, ricos, mendigos, avós com seus netos, pais com seus filhos, filhos sem seus pais e netos sem seus avós.

Todos eles têm um objetivo imediato. Uns vão comprar banana da terra no supermercado, outros têm consulta com seus médicos de confiança, outros se dirigem aos bancos, exibindo seus cartões brilhantes, e sacam alguma quantia, outros estão em busca de um canto para estender a mão. Uns entram, e saem com sacolas. Outros, do lado de fora, colocam-se a olhar fixamente os que saem com suas sacolas. Uns sentam e comem. Outros sentam e dormem.
Muitas vidas se entrelaçam pelos cantos da cidade, muitos olhares são trocados.

As impressões atentam para essa pluralidade de realidades.

Nos corredores do mercadinho, mãos se estendem em direção ao mesmo saco de chá.
- "..."
- "Pode pegar, eu prefiro esse aqui do lado."
- "Obrigado. Não deixe a água ferver muito, se não o chá não fica bom!"
Podemos nunca mais nos encontrar, mas por um momento tivemos a intenção de pegar o mesmo saco de chá, eu e aquela senhora cujo nome não perguntei. Ela foi ao caixa 3, eu ao caixa 5. Minha compra deu R$ 21,60. A dela não faço a menor idéia. E sumimos no meio da multidão.

Do outro lado da rua, um quarteto de cordas tocava peças barrocas, fazendo parar alguns e outros transeuntes, dos quais uma limitada parcela deixava alguns trocados no case de violino. Parei um pouco para apreciar, o som era muito agradável. Um lembrete de que tenho coisa parecida em casa, mas que há tempos não ouço. Deixei R$ 0,75 sobre as notas amassadas. Pouco, mas era isso ou R$ 10,00, e por que optei pelos centavos não sei bem responder. Apesar da quantia irrisória, me agradeceram, esboçando sorrisos que julguei verdadeiros, respondi com um aceno e segui meu curso. Há tempos não sentia tanto respeito sendo mutuamente compartilhado.
Bem aventurados, mas mal afortunados aqueles que trilham o caminho das artes.

Senti sede, olhei ao redor e vi a barraca de sucos. Faziam com a fruta inteira, casca e tudo. Eram bastante desorganizadas as pessoas espremidas na barraquinha sentada sobre o asfalto. Pai, mãe, filha, irmã e outras que falhei em identificar. Algum ruído se iniciava do meu lado.
- "Moça, seu suco!", dizia a trabalhadora mais jovem.
- "Eu não falei que queria sem açúcar!!", esbravejou a gorda mulher após levar o copo aos lábios.
- "Ai moça, desculpa, mas aqui fazemos todos com açúcar..."
- "Todos com açúcar, isso não existe! Isso que dá um bando de preto inventar essas coisas!!"
De súbito, a mulher jogou o suco no balcão e saiu. A menina, enrubrescida, foi para um canto se recuperar do ocorrido. Quem sabe se ela conseguiu...
Talvez tenha sido um dia ruim pra a mulher também, talvez algum parente seu tenha morrido, ou ela foi despedida. Um observador externo pouco sabe. Mas uma coisa eu posso dizer, que nada, nada justifica o tratamento dispensado à garota.

Tendo terminado meus afazeres, já era hora de ir embora. Naquela hora, pensei na senhora que me deu conselhos sobre o preparo de infusões. Pensei nos músicos, cujas vidas não devem ser nada fáceis, mas que mesmo assim ainda fazem o que fazem. Talvez por amor à arte, talvez por não terem outra escolha. Pensei na família que se esforça sobre-humanamente nos finais de semana para preparar sucos e levar uns trocados para casa. Pensei na gorda mulher e na sua atitude covarde de atirar o suco ao balcão. E pensei em mim, que tinha vindo até ali para comprar umas revistas, um pacote de chá, um vidrinho de pimenta coreana que havia prometido ao meu irmão e alguns biscoitos para dividir com alguém especial.



E, de repente, pensei em todas aquelas pessoas que fazem das calçadas suas camas, que fazem da sarjeta seus sofás e das pontes seus tetos. Pensei em todas aquelas pessoas que fazem de doses de pinga seus comprimidos para dormir. Em pessoas desprezadas, ridicularizadas e até temidas. Em fantasmas, seres zumbis a vagar pelas ruas, a nos importunar diante das janelas dos carros, pedindo trocados e demonstrações de pena e consideração.

Nós!
Quem somos nós? Quem sou eu?
Quem sou eu para ter pena de gente como eles? Quem sou eu para dar trocados? Quem sou eu para me importar?
Quem sou eu para achar que sou alguém...
Quem sou eu para achar que sou alguém para poder falar deles...para poder falar por eles...

Mais uma vez me sinto incomodado com a situação. Mais uma vez reajo da mesma forma. Mais uma vez o garfo com arroz e feijão que minha mãe prepara fica pesado.
De onde vem esse incômodo, essa culpa? De onde vem essa tristeza diante da condição alheia? E, pior, de onde vem essa falsidade diante do incômodo?
Não sei nada desse mundo, mas escrevo. Escrevo com a aparentemente autoridade de alguém que crê ter poder para um dia ver um outro mundo, mas que descrê das próprias ações, como se fugisse de uma responsabilidade pré-definida.


(...)

E pensei em mim, que tinha vindo até ali para comprar umas revistas, um pacote de chá, um vidrinho de pimenta coreana que havia prometido ao meu irmão e alguns biscoitos para dividir com alguém especial.
E pensei na minha única reação diante da janela do ônibus, indignação covardemente reduzida a duas palavras.

"Que merda..."

domingo, 28 de junho de 2009

Um domingo e Benjamin Button

A recente suspensão das atividades da graduação na faculdade deram a esse final de semestre uma súbita sensação de férias antecipadas. A gripe suína (ou gripe A H1N1, para evitar aborrecimentos aos simpatizantes da nomenclatura correta) trouxe algumas piadas infames e virou espetáculo nos grupos de e-mail. Todos agora fingem espirrar e estar enfermos.
Fato é que as provas foram adiadas e tenho agora uma semana perdida no começo de julho pra tentar estudar.

Pois bem. Hoje abri um livro, li cerca de três parágrafos e resolvi alugar um filme. O Curioso Caso de Benjamin Button foi o escolhido na prateleira empoeirada, não havia muito pelo que optar. Do conto de F. Scott Fitzgerald veio o longa de David Fincher. E não, não li o conto primeiro.
Vi o filme sozinho nessa manhã fria de domingo. Me alojei no sofá e, sob as cobertas, confortavelmente enfurnei minha cabeça no travesseiro, apertando o play com um sorriso no rosto. "Ahh..que gostoso estar de férias", me veio à cabeça por um momento.
Pois bem, o filme surpreendeu. Não cheguei a chorar, mas confesso que me sensibilizou um pouco. E fez o domingo ser mais do que um domingo em que a televisão da sala é brindada com a ilustre presença de Fausto Silva.


O fato do filme brincar com o meu conceito de novo e velho, vida e morte e sobretudo com a idéia que tenho de tempo me encantou.
Para seu corpo, o tempo caminhava no sentido reverso. E para sua mente? Benjamin cresceu em meio a pessoas que pareciam com ele fisicamente. Cresceu em meio a muitas histórias. Falas de gente que já tinha vivido décadas. Falas de gente que tinha pouco tempo de vida.
Falas de gente sete vezes atingida por trovões.

"Did I ever tell I've been struck by lightning seven times?", assim dizia Mr. Daws.

Vivo minha vida numa via reta...
Pode ser que hajam curvas, mas sempre estarei andando em frente. Um pé após o outro, num ciclo que em algum momento findará.
Meus aniversários aos poucos vão sendo menos cheios de enfeites e de doces, menos cheios de gente. E os anos vão passando, as experiências vão se acumulando e o corpo vai envelhecendo. Verei aqueles que hoje dividem suas vidas comigo morrerem algum dia. Verei um dia meus pais ficarem doentes, e nesse dia serei eu que irei pro hospital. Serei eu quem apresentará os documentos e cuidará das burocracias. Serei eu que direi "E aí, doutor, é grave?".
Os papéis se inverterão algum dia, mas ainda continuarão sendo os mesmo papéis, com as mesmas rasuras e dobraduras.

Vislumbrado com a questão do tempo, percebi que na verdade estava preocupado com o que faria com esse tempo, com quem passaria as manhãs até o último dia. E, no meio do filme, me dei conta da importância de construir uma família e sentir o tempo passar rodeado daqueles que são importantes pra mim. Aproveitar cada momento, cada fase. Me sentir bem ao envelhecer, me sentir bem sendo pai, depois avô. E ver que depois de tudo que vivi, deixei pra trás um rastro de alegria e felicidade.

Aliás, sempre quis ter uma filha. Uma filha que eu possa levar ao primeiro dia de aula, ensiná-la a andar de bicicleta, dançar uma valsa de 15 anos com ela e vê-la se formar na faculdade. Coisas simples da vida, coisas pequenas do dia-a-dia, mas coisas que tornam essa linha em que vivo infinita, conexa por pontos onde o nó é a morte, na passagem de geração para geração. Onde, quando o meu corpo se for, permaneça a importância e o significado de ter vivido.
Depois de morto, espero ter sido digno o suficiente para merecer de minha filha um lugar nas suas memórias. Espero ter sido digno o suficiente para que um dia ela olhe pra um foto e diga com um brilho nos olhos, "Olha, esse é meu pai!".

"Our lives are defined by its opportunities...even the ones we miss", assim disse Benjamin Button.


Benjamin via seus companheiros de quarto irem aos poucos, enquanto ele apenas começava a escrever sua história. Sempre que alguém morria, chegava outro. Crescer em meio à morte pode ou não trazer à tona o que ela significa. Mas quem sabe o que a morte significa?

"Benjamin, we're meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?", assim disse Mrs. Maple.

sábado, 20 de junho de 2009

Tendendo ao limite

Mais alguns pensamentos soltos, aos moldes dos escritos da Érica. Gostei de escrever desse jeito.
Aliás, me ocorreu agora que o que estou fazendo pode infringir direitos autorais...

Tem sido difícil manter a serenidade.
Sempre que te vejo, se torna bastante difícil manter a serenidade. Minha intenção era aproveitar cada oportunidade, cada mísero segundo, para tentar fazer as coisas direito, o que não tem se apresentado com facilidade. As palavras me escapam, o raciocínio se confunde, as mãos começar a coçar. Não sei se percebe, aliás. Espero que não.
Na sua presença, sempre procurei fazer aquilo que soasse mais natural. Sempre tentei me adequar àquilo que achava ser o que você esperava. Minhas poucas tentativas parecem ter sempre falhado. Não vejo contrapartida, não vejo retorno. Mas será que tenho que ver algum? Será que devo ser mais paciente? Será o tempo, o problema? Ou ainda, será que estou olhando pro lugar certo?
Talvez deva insistir um pouco mais! Talvez não...sinto me arrepender disso mais pra frente...Então até onde eu posso ir? Até onde posso me arriscar? Também sinto que me arrependerei se nada fizer...No limite, minha fraqueza parece ser maior. Quisera eu ter a determinação e a coragem pra me expor uma vez mais, pra deixar de lado a postura pessimista.
Apesar de assim parecer, ainda não obtive sucesso em digerir aquela conversa de "somos só amigos".

Por que é tão difícil me desvencilhar disso? Por que é tão difícil sentir a liberdade novamente? Por que é tão difícil me despedir de você sem ficar com a impressão de que tinha que ter te falado algo, mas não falei? Você já disse que não se tratava daquilo que eu imaginava. Mas eu insisto em achar que você não quis escrever aquelas palavras. Insisto em querer acreditar que a vela ainda não apagou, que é só proteger um pouco que ela acende de novo. Sim, ainda gosto muito de você e ainda não me convenci de que seguiremos caminhos completamente distintos. E dessa incerteza nasce a esperança. Mas lembremo-nos que da esperança também nasce a frustração...
Tenho criado o hábito de diariamente reparar a minha máscara, que tem se desgastado com facilidade nos últimos tempos. E confesso que já estou cansando. Não quero mais usá-la, preciso respirar ar puro, preciso sentir o vento bater no rosto. Nem que para isso tenha que tirá-la à força. Pode sangrar um pouco, mas depois cicatriza, sem grandes problemas. Afinal de contas, a vida continua e sempre continuará, de um jeito ou de outro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Onegaishimasu

Toda semana, em dias alternados, colocava meus pés no tatami.

"Onegaishimasu" era a palavra que proferia ao adentrar no dojo. Sempre que abria a portinha, ajeitava meus pés de modo a direcioná-los para frente e de modo que ficassem juntos. Calmamente, reverenciava os kami, tomando o cuidado de manter o olhar direcionado para o chão.

Me lembro da fonte e do calmo som da água caindo nas pedras. Os trófeus dos outros sensei enchiam o ambiente de grandeza e brilho. As espadas davam o ar militar, enquanto os ningyo, os bonecos feitos de conchas do mar moídas e cola, representando figuras femininas davam o ar sutil e confortante.
As gravuras shodo, a música meditativa honkyoku e o mini-jardim zen, tudo transformava o ambiente num pedaço do Japão. Tudo criava, uno e separadamente, um ambiente harmônico, pacífico, pleno.

"Domo arigatou gozaimashita, doshi-sama" eram as palavras que proferia ao retirar-me do dojo. Mais uma vez, ajeitava meus pés e reverenciava os kami, mantendo o olhar direcionado para o chão. E ia embora pra casa, com a sensação de dever cumprido.


Desde que iniciei a prática do Zenjutsu, arte marcial que resgata os valores dos antigos guerreiros samurai, tenho me apegado muito ao Japão e a seu passado. O modo de encarar a vida dos japoneses na antiguidade me fascina, me seduz, me intriga. Para tudo há uma resposta, mas que não deve ser evidenciada, ou tampouco procurada. Os caminhos, ou do, na terminologia japonesa, seriam os meios pelos quais o homem transcende a vida cotidiana dentro dela mesma. Não entendo em profundidade a essência do do, apenas tenho uma vaga noção.

Iniciei meus estudos, por assim dizer, no budo (ou caminho marcial). Nas paredes do dojo estavam representadas as 8 virtudes do guerreiro: honra, coragem, cortesia e polidez, sinceridade, humildade, dever e lealdade, compaixão, honestidade e justiça. Exercitávamos esses valores todos os dias, onde e com quem quer que fosse.
Era nos dias de frio, quando treinávamos descalços, portando somente uma vestimenta semi-aberta, que vía como aquilo tinha significado. Era preciso despir-se de frescuras e preconceitos. Se estava frio, estava frio, e nada além disso.
Me recordo certa feita quando, também num dia de frio (aliás fazia 7°C), o sensei propôs um aquecimento somente com respiração. "Está doido", eu muito erradamente concluí. Bastaram alguns minutos de respiração cadenciada e bem conduzida para minhas mãos começarem a suar. Senti minhas pernas esquentarem e meus pulmões se encherem vigorosos, parecia ter acabado de acordar de uma boa noite de sono, tamanha a energia que sentia.
Jamais havia sentido nada parecido.

Lembro dos shugyo, os treinos intensos de 2 horas, que fazíamos uma vez por mês. O preparo psicológico já começava antes mesmo de entrarmos no tatami. O objetivo era a exaustão física e a transposição dos limites. Repetíamos exaustivamente séries e mais séries de exercícios, até o corpo dizer que não aguentava mais. Em um desses treinos, senti que minha perna direita não servia mais pra nada, não sustentava nem minha cabeça.
"Sensei...não dá mais...não consigo mais chutar com essa perna."
"Seu corpo aguenta. Mas a questão é se sua mente pode aguentar."

E o corpo aguentava. A questão era realmente minha mente, onde meu ego colocava barreiras a ele mesmo.
No final desses treinos, com o corpo já bastante moído, fazíamos um exercício de meditação, ao som de flautas e ao aroma de incensos.

Com o corpo destruído, treino após treino me sentia cada vez mais leve. Me livrava de angústias, de preocupações e medos. E restava apenas o vazio, a mente limpa, como a superfície de uma lagoa na calmaria.

Hoje não treino mais as técnicas de combate, embora pretenda voltar. Muito do que aprendi lá foi decisivo no meu processo de entrar na faculdade.
E agora?
Cá estou, estudando ciências econômicas, tentando entender porque o consumidor escolhe x do bem 1 e y do bem 2, dada sua função utilidade Cobb-Douglas, com homogeneidade de grau 1. Parece que é só um problema de maximização com Lagrangiano...
Meu Deus....Será esse mesmo o caminho que escolhi pra mim? Será esse o único caminho que posso seguir de agora em diante?

Sinto que abdiquei de algo que não deveria ter abdicado, por mais que não entendesse do zen e abstraísse superficialmente os códigos do bushido e de todo aquele papo de "iluminação" e "conheça a ti mesmo". O respeito mútuo naquele dojo era algo que não encontrei em nenhum outro lugar. O sentido que aquele nome tinha e o peso da presença do sensei eram inexplicáveis.
Sinto falta das pessoas, da música, do bancha depois dos treinos, do barulinho da água...
Sinto falta de voltar pra casa e sentir o corpo cansado e o vazio. O corpo cansado que me fazia aproveitar um banho e o vazio que me fazia dormir com um sorriso no rosto e com paz na cabeça.


"É preciso buscar o equilíbrio", assim dizia meu sensei.
"Hoje, seu maior adversário é você mesmo. Use o que você aprendeu aqui para se tornar uma pessoa melhor e tornar melhor a vida daqueles que te rodeiam. Diante de uma injustiça, não se omita. Diante de um objetivo, não hesite. Diante de um sentimento, não despreze. Diante de quem quer que seja, respeite."

quarta-feira, 10 de junho de 2009

"Amores"

Há um blog que considero merecedor de destaque, Giramundo e Girassol (o link está ao lado). Érica, a autora desses escritos, é minha conhecida há pouco tempo. Seus textos...eu diria que são...universais. Há uma altíssima probabilidade de que haja identificação pessoal com o que ela escreve, em maior ou menor grau.
Seu último, Amores, me incitou algumas boas reflexões, algumas noites mal-dormidas e voltas pra casa introspectivas. Em poucos dias, me revirou muitos pensamentos.
A poesia é decorrência natural da forma e do conteúdo - atente o leitor à quase onipresença de parágrafos únicos.

Me aproprio dessa poesia para fazer minha própria versão - muito mais modesta, hei de adiantar. Vejamos no que dá uma mistura de pensamentos soltos, sentimentos presos, ideias confusas, vontades e desejos, traduzidos no título mesmo.

Dos Amores e suas Desconstruções

Parei para pensar em como sua presença se tornou algo importante para mim. Me acostumei com as conversas nos banquinhos, regadas a risadas e comentários soltos. Nos falamos poucas vezes só nós dois, é verdade, mas talvez seja por falta de oportunidade, ou assim quer crer meu ego. Talvez tenha te idealizado um pouco, talvez tenha te dado muita importância, mas isso já perdeu qualquer relevância que porventura tivesse. Embora tenha já passado pela turbulência dos primeiros passos, voltei forçadamente a engatinhar, me apoiando sobre frágeis joelhos, tremendo para não cair. Mas te digo, me chame pra jantar na sua casa, nem que seja miojo e goiabada. Me chame pra te ajudar no trabalho da faculdade, nem que seja pra fazer ditado. Me abrace, pra eu me sentir protetor e me dê uma risada pra eu me sentir completo. Deixa eu sentir sua respiração de perto e sua voz falando baixo, quase sussurrando. Ainda que discuta política monetária e teoria do valor com meus companheiros de bar, perto de você viro uma criança, pronta pra sorrir diante de uma careta ou pra se acabar em piadas prontas.
Me encante com seu jeito divertido, seu sorriso verdadeiro e seu olhar profundo e penetrante. Sua beleza é para mim um refúgio e sua voz é um calmante. Seu cheiro desconheço, nunca consegui roubar por alguns instantes alguma peça de roupa tua. Sua pele, um vago ideal no meu imaginário, nem sequer uma lembrança.
Diga o que quer, que te darei tudo que tenho. Diga que me quer, que te direi que te quero. Diga que me ama, que não direi mais uma palavra. E aproveitemos esse sopro de felicidade enquanto ele durar e enquanto ainda é tempo, pois o futuro é incerto e o passado é certo demais.
E se nada disso fizer, me deixe ao menos pensar em você e lembrar do dia em que, talvez, as coisas pudessem ter sido diferentes.

domingo, 31 de maio de 2009

Dividir unifica

Esse ano tem sido excepcional. Estamos ainda em maio e já fui convidado para duas festas de 15 anos. A proporção é maior agora do que era quando ainda tinha essa idade. Lembro que no colégio ser convidado para uma festa dessas era um símbolo de status. Era como ser reconhecido como conhecido da garota bonita que pertencia ao grupo descolado.

É interessante como os convites de festas de 15 anos são escritos, atribuindo ares de importância a todos os convidados. Há variações, mas que pouco se distanciam do padrão. "Nessa noite especial quero dividir minha felicidade com pessoas especiais, e você é uma delas".
Nunca me esqueci de um convite rosa que me deram, que tinha uma citação de Nietzsche. Meu amigo, 16 anos na época, leitor interessado dos pensadores da filosofia, bem observou: "Se ela entendesse Nietzsche, nem faria festa". Para aparentar intelectualidade, concordei silenciosamente com sua observação. Eu fingi entender de Nietzsche e ele fingiu ter acreditado em mim.

À parte os comentários maldosos durante a festa (seja acerca dos convidados, ou dos salgadinhos, ou de comportamentos isolados de crianças), momentos como esses são bastante especiais. O cerimonial engessado de uma festa de 15 anos, com uma série de regras e protocolos a seguir, leva os presentes a refletirem sobre o que têm feito de suas vidas. Os 15 casais que entram, a sessão de fotos da infância, a valsa com o pai, com o tio, com o avô e com o príncipe, e as homenagens que se seguem me induziram a pensar sobre o passado e sobre o futuro, sobre o que passou e sobre o que eu acho que vai passar.

Será que terei uma filha, para poder dançar uma valsa de 15 anos com ela?

Imediatamente me coloquei no lugar do pai, na sua felicidade de ver aquelas fotos de quando sua filha aprendeu a andar de bicicleta, de quando ela comia com babador, de quando ela ia na piscina de bolinhas.
E, súbita e estranhamente, toda aquela situação me provocou, ao mesmo tempo, alegria e tristeza. Alegria por aquela família, que vivia um momento feliz, livre de tensões e fardos. Tristeza por algo que falho em identificar, como um sentimento de que aquilo não fosse acontecer comigo.

Tenho pensado muito em família ultimamente, muito em companheirismo, compania (talvez as palavras de meu avô tenham realmente surtido algum efeito). Não sei exatamente o que se passa, nunca fui de querer dividir muito minhas idéias guardadas na cabeça, nunca fui de admitir que precisava de outras pessoas. Mas, de súbito, enxerguei o "outro" e nele vi a figura com quem desejo dividir aquilo que penso. Um "outro" ora distante, ora próximo, ora aberto, ora codificado, hermético, indecifrável. Dele pouco entendo, mas muito dele espero.

(...)

Acho que a importância do outro reside no fato de ser com ele que dividimos aquilo que desesperadamente desejamos dividir, aquilo que necessitamos dividir.
Dividir a dor, e não fazê-la cessar. Dividir a alegria, enquanto esta durar. Dividir o prazer do corpo e dele não ter vergonha. Dividir as angústias, as tristezas, as obrigações, os objetivos, as vitórias e as derrotas.
Dividir as expectativas. Dividir as vontades.

Dividindo, aquilo que é separado torna-se uno, absoluto.