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terça-feira, 16 de junho de 2009

Onegaishimasu

Toda semana, em dias alternados, colocava meus pés no tatami.

"Onegaishimasu" era a palavra que proferia ao adentrar no dojo. Sempre que abria a portinha, ajeitava meus pés de modo a direcioná-los para frente e de modo que ficassem juntos. Calmamente, reverenciava os kami, tomando o cuidado de manter o olhar direcionado para o chão.

Me lembro da fonte e do calmo som da água caindo nas pedras. Os trófeus dos outros sensei enchiam o ambiente de grandeza e brilho. As espadas davam o ar militar, enquanto os ningyo, os bonecos feitos de conchas do mar moídas e cola, representando figuras femininas davam o ar sutil e confortante.
As gravuras shodo, a música meditativa honkyoku e o mini-jardim zen, tudo transformava o ambiente num pedaço do Japão. Tudo criava, uno e separadamente, um ambiente harmônico, pacífico, pleno.

"Domo arigatou gozaimashita, doshi-sama" eram as palavras que proferia ao retirar-me do dojo. Mais uma vez, ajeitava meus pés e reverenciava os kami, mantendo o olhar direcionado para o chão. E ia embora pra casa, com a sensação de dever cumprido.


Desde que iniciei a prática do Zenjutsu, arte marcial que resgata os valores dos antigos guerreiros samurai, tenho me apegado muito ao Japão e a seu passado. O modo de encarar a vida dos japoneses na antiguidade me fascina, me seduz, me intriga. Para tudo há uma resposta, mas que não deve ser evidenciada, ou tampouco procurada. Os caminhos, ou do, na terminologia japonesa, seriam os meios pelos quais o homem transcende a vida cotidiana dentro dela mesma. Não entendo em profundidade a essência do do, apenas tenho uma vaga noção.

Iniciei meus estudos, por assim dizer, no budo (ou caminho marcial). Nas paredes do dojo estavam representadas as 8 virtudes do guerreiro: honra, coragem, cortesia e polidez, sinceridade, humildade, dever e lealdade, compaixão, honestidade e justiça. Exercitávamos esses valores todos os dias, onde e com quem quer que fosse.
Era nos dias de frio, quando treinávamos descalços, portando somente uma vestimenta semi-aberta, que vía como aquilo tinha significado. Era preciso despir-se de frescuras e preconceitos. Se estava frio, estava frio, e nada além disso.
Me recordo certa feita quando, também num dia de frio (aliás fazia 7°C), o sensei propôs um aquecimento somente com respiração. "Está doido", eu muito erradamente concluí. Bastaram alguns minutos de respiração cadenciada e bem conduzida para minhas mãos começarem a suar. Senti minhas pernas esquentarem e meus pulmões se encherem vigorosos, parecia ter acabado de acordar de uma boa noite de sono, tamanha a energia que sentia.
Jamais havia sentido nada parecido.

Lembro dos shugyo, os treinos intensos de 2 horas, que fazíamos uma vez por mês. O preparo psicológico já começava antes mesmo de entrarmos no tatami. O objetivo era a exaustão física e a transposição dos limites. Repetíamos exaustivamente séries e mais séries de exercícios, até o corpo dizer que não aguentava mais. Em um desses treinos, senti que minha perna direita não servia mais pra nada, não sustentava nem minha cabeça.
"Sensei...não dá mais...não consigo mais chutar com essa perna."
"Seu corpo aguenta. Mas a questão é se sua mente pode aguentar."

E o corpo aguentava. A questão era realmente minha mente, onde meu ego colocava barreiras a ele mesmo.
No final desses treinos, com o corpo já bastante moído, fazíamos um exercício de meditação, ao som de flautas e ao aroma de incensos.

Com o corpo destruído, treino após treino me sentia cada vez mais leve. Me livrava de angústias, de preocupações e medos. E restava apenas o vazio, a mente limpa, como a superfície de uma lagoa na calmaria.

Hoje não treino mais as técnicas de combate, embora pretenda voltar. Muito do que aprendi lá foi decisivo no meu processo de entrar na faculdade.
E agora?
Cá estou, estudando ciências econômicas, tentando entender porque o consumidor escolhe x do bem 1 e y do bem 2, dada sua função utilidade Cobb-Douglas, com homogeneidade de grau 1. Parece que é só um problema de maximização com Lagrangiano...
Meu Deus....Será esse mesmo o caminho que escolhi pra mim? Será esse o único caminho que posso seguir de agora em diante?

Sinto que abdiquei de algo que não deveria ter abdicado, por mais que não entendesse do zen e abstraísse superficialmente os códigos do bushido e de todo aquele papo de "iluminação" e "conheça a ti mesmo". O respeito mútuo naquele dojo era algo que não encontrei em nenhum outro lugar. O sentido que aquele nome tinha e o peso da presença do sensei eram inexplicáveis.
Sinto falta das pessoas, da música, do bancha depois dos treinos, do barulinho da água...
Sinto falta de voltar pra casa e sentir o corpo cansado e o vazio. O corpo cansado que me fazia aproveitar um banho e o vazio que me fazia dormir com um sorriso no rosto e com paz na cabeça.


"É preciso buscar o equilíbrio", assim dizia meu sensei.
"Hoje, seu maior adversário é você mesmo. Use o que você aprendeu aqui para se tornar uma pessoa melhor e tornar melhor a vida daqueles que te rodeiam. Diante de uma injustiça, não se omita. Diante de um objetivo, não hesite. Diante de um sentimento, não despreze. Diante de quem quer que seja, respeite."

9 comentários:

Déia disse...

Amo a sabedoria oriental!
O que você escreveu é lindo e as últimas palavras, do seu sensei, são as coisas mais maravilhosas que já lí. Posso copiar?
Estou arrepiada e emocionada!
beijos

Érica disse...

Incrivel!!
Mesmo pelo pouco tempo que te conheço, acredito que seu sensei estaria orgulhoso em ver como vc absorveu cada ensinamento dele, e o modo que eles irradiam de seu carater.
lindo demais!

bjoss

Pri Datri disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pri Datri disse...

Muito sábias as palavras do seu sensei!
Talvez essa sabedoria seja um dos motivos pelo qual eu tenho muito desse lado oriental por dentro de mim.

Hiromiiii^^ disse...

Acho que muito disso que você falou faltou pra gente no domingo... o equilíbrio... o aquecimento de dentro...

você tem algum livro pra me indicar?
Você tem mais de sabedoria oriental do que eu que sou fisicamente nihonjin. Você consegue passar serenidade só pelo olhar!
Volte a treinar se a paixão por essa arte ainda não acabou.

Beijão

Luana Inaudita disse...

Que maravilha, Gabriel! Sou praticante de Karate, não é mais uma arte marcial tão tradicional quanto o zenjutsu, mas tenho uma idéia do que vc está falando.
Também sou muito apegada a sabedoria oriental (japonesa através do karate e indiana, atraves da Yoga), e paradoxalmente ambas propõe o desapego...

Ulysses Bôscolo disse...

Treinar uma "arte marcial" é entrarem contato com forças, que mal conhecemos direito.
Gostei muito deste depoimento. È verdadeiro... uma xilogravura.
Forte abraço,
Ulysses Bôscolo.

Anônimo disse...

Gabrieeeeeel!! Ai! Então vc entrou na facu?? Estou tão orgulhosa de vc!!!!!!
Eu dava aula de japonês no Zen..lembra?...
Fiquei lembrando da gente treinando..caindo errado no começo...se matando...kkkkkk
Mas saí tb...
Bjos, sdds

Bia

kawaii_bia@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Gabrieeeeeel!! Ai! Então vc entrou na facu?? Estou tão orgulhosa de vc!!!!!!
Eu dava aula de japonês no Zen..lembra?...
Fiquei lembrando da gente treinando..caindo errado no começo...se matando...kkkkkk
Mas saí tb...
Bjos, sdds

Bia

kawaii_bia@yahoo.com.br