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domingo, 12 de julho de 2009

Kozure Ookami

"Quando não se há mais nada a perder, quando tudo o que possuímos nos é tomado e tudo em que acreditávamos nos é negado, certamente somos obrigados a rever certos princípios. Mais do que frustração ou desespero, a sensação mais visceral é a necessidade de identificar o que é realmente necessário para a vida. Nem luxos, nem posição, nem reconhecimento, nem mesmo o pão de cada dia. O que importa, de fato, é a motivação que nos faz seguir adiante. Contentar-se apenas em sobreviver e, com isso, ter somente uma pseudo-vida? Ou estabelecer uma meta, mesmo que irreal ou inalcançável, para, ao menos, ter com o que sonhar?"


Itto Ogami teve sua mulher assassinada e seu cargo político comprometido. Era executor do shogun, um dos cargos de maior prestígio no Japão do sec. XVII. Tendo o nome de sua família desonrado, Ogami escolhe trilhar o meifumado, literalmente o caminho do inferno, e viver em meio à morte e à vingança. Seu filho, Daigoro, também se vê diante de uma escolha.

"Daigoro! Você deve achar seu próprio caminho! Escolha a dotanuki e junte-se ao seu pai na estrada do assassino. Escolha a temari e eu te mandarei para junto de sua mãe em yomi, a terra dos espíritos."


O pequeno Daigoro escolhe a espada, e sem hesitar passa a seguir o pai e a trilhar o meifumado. A relação dos dois é uma das coisas que mais impressiona na história.

"Um pai conhece o coração do filho, como só o filho conhece o do pai. Um estranho não entenderia", diz o ex-executor.


Há capítulos só sobre o filho, sobre como ele lida com situações adversas. É praticamente impossível descrever a profundidade e a genialidade com que o autor desenvolve a história. A descrição psicológica das personagens é fantástica, ainda mais aliada aos traços únicos de seu desenho. A fidelidade histórica e a seriedade da abordagem impressionam. Ainda mais a mim, com raso conhecimento de histórias em quadrinhos.

O trecho citado no topo do post é parte da introdução do volume 5 de "Lobo Solitário", uma verdadeira obra de arte sob a tutela de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Estou no sexto dos 28 volumes e já estou maravilhado, realmente vale a pena.
Os autores vão além do arroz-com-feijão quando se trata de contar histórias de samurai, dissecando a fundo seu código de conduta e seus valores. Por se tratar de relativa paz interna no Japão (leia-se estabilidade política), a classe dos samurai passava por uma transição, onde as artes da espada perdiam importância militar, mas ganhavam importância social. Em meio a esse quadro, um grande número de samurai perderam seu "emprego", ficaram sem senhor, passando a vagar pelas ruas e dedicando-se a outras atividades. Itto Ogami é um desses ronin (samurai sem senhor), e passa a atuar como matador contratado por terceiros, apelidado de lobo solitário.
Até que ponto vai o bushido e a honra dos samurai? Será que se trata apenas de escolher entre o bushido ou o meifumado? Esses são questionamentos trazidos pelos autores, e que em momento algum são levianos.
Além dessa questão, há também a belíssima aula de história dada por essa obra. Questões políticas, econômicas e sociais podem ser apreendidas durante a leitura. O retrato dos costumes e da estrutura social do Japão daquela época é minuncioso, e melhor do que muitos livros de história, creio eu.

Enfim, fica a recomendação aos interessados.




"O homem virtuoso diz:
a alegria mora no lugar onde ela é gerada,
a gratidão jamais se esquece de suas origens,
os antigos já diziam.

O lobo morre e volta a sua cabeça para o morro.
Isso é chamado clemência."

2 comentários:

Déia disse...

Adorei, pra variar...vou me informar mais e ler tudo sobre isso!
Adoro sua sabedoria, sabia?
bjs e ótimo fds

Bruno disse...

Lobo Solitario e muito bom mesmo...

E essa cena do daigoro escolhendo entre a bola e a espada eh sensacional...

Abraço rapaz