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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fim de festa

Deu 3h. Aos poucos os presentes se retiram. Aqui, só limpeza a fazer. Miles Davis de fundo; penumbra. Sobraram: eu, ela e o cachorro. O pobrezinho estava meio tonto, lambendo a própria genitália, ela me contara que haviam dado de beber ao animal.

"Foi o vinho...", lamentava.

Logo o cachorro se deitou, dava sinais de se entregar aos prazeres do sono pós-vinho. Sobraram: eu e ela. Recolhendo as latas distorcidas e os copos parcialmente inteiros.
Sugeri usar o aspirador para dar cabo dos cacos e das pipocas dispersas no tapete, mas fui de pronto repreendido.

"Não quero barulho.", reiterava.

Ela há tempos desistira da faxina, se ocupava agora de suas unhas, retirando detritos e afins. Olhava furtivamente para minha calça.
Abaixava para recolher a última lata quando o tecido se rompeu na região traseira. Ela desfaleu-se em gargalhadas, por minutos. Não aguentei, tive que acompanhá-la.

"Hahahahahahaha !!!", ria.

Aquela última lata permanecera no tapete. Deitei-me junto a ela no sofá. Minha mão agia sozinha, assim como a dela. Beijos.

"Não aguento mais...não aguento...", murmurava.

Fechou os olhos. Falecera. Segundo os médicos, tinha 6 meses de vida. Se foi na segunda semana. Acordara naquele dia decidida a viver uma noite memorável. E foi.
Sobraram: eu.

"...".

Recolhi a última lata, a faxina estava completa. Cabia agora organizar os trâmites judiciais do falecimento e escolher o modelo do caixão. Ela gostava de cedro.
Deu 5h, já é tarde. Também me retiro.

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