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domingo, 24 de maio de 2009

O outro e sua importância

Pessoas vêm e vão em nossas vidas. Um bocado delas. Umas ficam, outras voltam, outras desaparecem.


Da maioria ficam somente lembranças, fotos de um tempo aparentemente distante. De uma outra parte, fica a expectativa do reencontro, temperada com as fantasias do que poderia ter sido e não foi. Essas costumam ser fonte de frustrações.
Poucas delas, muito poucas, transcendem a superficialidade. Tenho muitos conhecidos, mas conheço poucas pessoas. Fato.

A que devemos essa infeliz superficialidade nas relações humanas? Há quem diga que é a correria da sociedade moderna. Em direção totalmente oposta, há quem diga que é o caráter monótono da sociedade moderna.
Eu sinceramente não sei responder.

Seria por que atrelamos às pessoas que conhecemos alguma função social? Não faltaria considerarmos as pessoas pelas pessoas, pura e simplesmente?
Conhecer o padeiro, e não o João, o dono da banca, e não o Marcos, não restringiria a profundidade que essa relação poderia tomar?

Há alguns finais de semana atrás, questionei meu avô sobre essa questão enquanto pescávamos na beira de um rio. Era manhã, o tempo estava maravilhoso e a água calma. Bastante pragmático, me respondeu: "Ora meu filho, você conhece melhor as pessoas com quem passa a maior parte do seu tempo."
Indo mais a fundo, lhe perguntei: "Certo, mas o que é que determina quanto tempo passamos com cada pessoa?"
Nessa hora, veio a luz.

"Isso, só você tem a resposta. Pra mim, o que é essencial é a importância. Eu passo mais tempo com as pessoas que são importantes pra mim, que fazem com que eu me sinta bem, que fazem com que eu me sinta parte da vida delas também. Pra mim, essas pessoas são a nossa família. O resto é resto. Tem muita gente no mundo, muita gente que só quer passar por cima de você. Essas você evita, fala só oi e tchau. O importante mesmo é a família, Gabriel, é a família meu filho."

Maravilhado com a sabedoria do meu avô, de pronto concordei com o que disse. Seguiu-se um silêncio reflexivo, quebrado pelo barulho de uma tilápia que saía da água, presa sob o anzol de meu avô. Era o décimo que ele pegara. Eu dava apenas prejuízo com as iscas.

Seria então essa superficialidade mesmo infeliz? Não seria ela necessária, produto da organização social, inerente ao modo como vivemos?
As palavras de meu avô apontam nessa direção.
Realmente simpatizei com o critério que ele colocou. Atribuir importância às pessoas e, a partir disso, conhecê-las mais ou menos me parece bastante razoável. Aliás, é o que tenho feito inconscientemente até hoje.
A importância que essa ou aquela pessoa tem para mim é algo que é difícil de controlar, de qualificar, de quantificar. Aliás, mais difícil ainda é determinar do que nasce essa importância. Da convivência? Nem sempre. De atos "heróicos"? Pouco provável. De um olhar? Talvez.

Seria então entre essas pessoas que devemos construir nossas bases?

E quando a importância não é recíproca (se é que faz algum sentido ela ser recíproca)? Que se há de fazer então?
Lutar pela amizade e reconhecimento dessa pessoa, correndo-se o risco de superdosar? Ou simplesmente observá-la de longe, mantendo uma distância saudável?
Não seria o caso de adaptar os diversos "eus" que existem dentro de cada de nós, de modo a conviver pacificamente com o que está dado? Ou seria de caso de mudar o que está dado, de modo a satisfazer nossos "eus"?

Na próxima pescaria com meu avô tiro essa dúvida.
Ainda que seja criação artificial do eu, o outro tem sim importância. Será por isso que "o inferno são os outros"?

8 comentários:

Érica disse...

Li em algum lugar de frases cliches que "Amigos éa familia que nós podemos escolher" ... e é assim.. voce simplesmeste gosta e não pede nada em troca, apenas fazemos a nossa parte!
As vezes acho que pensamos mais em certas pessoas do que elas mesmo podem imaginar e/ou valorizar isso! E digo mais, são raros os que reconhecem essa dependencia.

Seu avô está mais do que certo! Uma vez me falaram que era para eu atender pessoas importantes para o envento da faculdade e mostrar um lugar na frente, admito que só parei oq fazia para dar melhor atenção qdo reconheci a familia do palestrante homenagiado! hehehe

bjoss

Déia disse...

Eu me importo com minha família e com os amigos de verdade, sabe? Aqueles 5 ou 6? que também se importam contigo, que te dão o colo, abronca e o sorriso e você respeita -o sem julga-lo?
Pra mim, é isso...
Amigo de verdade é algo sem explicação! e só depende de nós manter a relação aquecida apesar das desculpas que podemos arrumar rs

Hiromiiii^^ disse...

Conheça muitas pessoas, muitas mesmo! Porque cada uma que aparece na sua vida, mesmo que não goste, não aparece por acaso, pode ter certeza! Guarde o que cada um pode te proporcionar... coisas boas, guarde-as como sagradas... coisas ruins, tente entendê-las e transforme-as em boas e aí, sim, guarde-as!

*Assista Sicko e Zeitgeist!!! São muito bons!! Pelo menos, eu gostei...

Beijão

E patê de soja é muitooooooooo bom!!!

Milena Candido disse...

Minha família e os 5 ou 6 amigos (que a Andrea mencionou)é que são realmente amigos e se preocupam de verdade.. Geralmente temos muitos "colegas", mas amizade de verdade é difícil, temos que fazer de tudo para preservar.Eu mesmo, mantenho sempre contato.:)

Luana Inaudita disse...

A sabedoria do seu avô já não serve para mim. Minha família é maluca e despedaçada. Eu sou extremamente anti-social. E primo pelo clichê dito pela Érica aí em cima: "amigos são a família que podemos escolher".
Belo texto, Gabriel! (mais uma vez...)

Liciane disse...

Obrigada pela visita, eu também gostei muito do seu blog, você escreve muito bem!! Adorei seus textos! Volte sempre! Beijos.

Pri disse...

Não é a toa que se diz que devemos sempre ouvir os mais velhos...eles tem muita coisa para nos ensinar.

Não sei se um dia ainda vou entender porque algumas pessoas a gente faz questão de ter ao nosso lado e outras simplesmente estão ali, sem marcar tanto as nossas vidas.
Sei que é incrível como pessoas podem nos surpreender e é sempre bom poder ter quem a gente gosta ao nosso lado.

Morei com 3 meninas de Fortaleza por três meses nas férias. Pouco tempo? A distância é grande? Acho que tudo o que vivemos deixou lembranças muito fortes que não serão apagadas com o tempo e, por menos frequente que sejam nossos reencontros não mudarão em nada o carinho que ficou.

Tempo, será que um dia eu consigo entender sua força?

Dani disse...

Lindo, seu texto, Gabriel, maravilhoso,vou até fazer um comentário sobre ele no meu blog, se vc permitir...
Sou extremamente sensível e fiel aos meus amigos,mesmo que não consiga-de imediato-sentir sempre a reciprocidade, na verdade, a troca, se é que virá, pode não vir dessa mesma pessoa a quem nos dedicamos mas virá de alguma outra forma, acredito muito nisso...
Um beijão e continue escrevendo textos tão lindos quanto esse...beijo!