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quinta-feira, 14 de maio de 2009

A ela, um vago obrigado

O Dia das Mães passou, foi domingo último. Não escrevi nada, não pensei em escrever nada. Estava ocupado demais estudando macroeconomia. Faria uma prova na terça-feira pós-Dia das Mães.
Egoísta eu, não?

Me lembrei horas atrás de um episódio que ocorreu a mim e a minha mãe já há algum tempo. Tinha na época cinco ou seis anos, se não me falha a memória atordoada pela cafeína.
Estávamos nos arredores de uma chácara que meu pai comprara havia pouco tempo. Fazia Sol, era sábado e andávamos sob os pinheiros perto da represa.
Éramos na ocasião eu, ela, meus avós e meu primo. Não me lembro por que razão, eu e minha mãe nos distanciamos dos outros. Ela me contava como nasciam os pinheiros e porque eles ficavam tão grandes e fortes.

- "Mãe, por que os pinheiros ficam um do lado do outro?"
- "Ali filho, oh. Eles usam os pinheiros pra separar um sítio do outro, quem nem no nosso."

Minha memória conserva esse momento como um museu. Me lembro de cada detalhe.

- "Ah, mas por que não usa arame?"
- "Ah filho, com árvore fica mais bonito, né?"

Andando de mãos dadas com minha mãe, me sentia protegido. Fantasiava sobre qual seria o jantar aquela noite e sobre qual jogo de videogame jogaria com meu primo até 3h da madrugada.
Alguns minutos depois, uns bois que ficavam numa chácara das proximidades se espantaram com um caminhão. Os gordos animais passaram a correr assustados, a cerca estava aberta.
Minha mãe usava uma camiseta vermelha, daquelas promocionais (era da Ki-Suco, nos primórdios do suco de pozinho).
Minha avó se assustara, dizendo pra minha mãe sair de lá, por que os bois não gostavam da cor vermelha. Não deu outra, minha mãe ficou ali parada, sem saber o que fazer. Um dos bois começou a ir em sua direção.
Lembrando dos desenhos animados que assistia com frequência, empunhei um galho e passei a correr atrás do boi, gritando pra ele sair.

Provavelmente o objetivo do boi não era chegar à camiseta vermelha da Ki-Suco, provavelmente aquela era só mais uma das rotas aleatórias que eles estavam tomando.
Não importa. Ao expulsar o boi, fui conclamado o herói do dia. Minha mãe bradava para meus avós que eu havia salvado ela, que eu era bravo e corajoso.

Nunca me esqueci desse dia. Na noite que se seguira, ao subir numa árvore, escorreguei e bati o braço num espinhal. Bastaram alguns ferimentos leves pra eu me derrubar num choro irritante. Quem veio me acalmar?

- "Calma filho, não foi nada."
- "Não mãe! Tá doendo!"
- "Ah, que nada. Você me salvou do touro e tá chorando por um cortezinho desses?"
- "...", esbocei nessa hora um sorriso. "Que tem pra jantar?"
- "Sua vó fez bife com purê!"
- "Ebaaa! Depois tem doce de leite né? O pai falou que comprou!"

Lembro daqueles tempos como se fosse hoje. Felizmente, minha família se mantém firme, resistente às nuances e buracos que o tempo vai cravando.
Ver que cheguei aonde cheguei e olhar para o que passou me traz sempre a certeza de que à minha mãe devo mais do que um simples "Obrigado" e um "Feliz Dia das Mães" todo primeiro domingo de maio.
Assumir a tarefa (ou melhor, a bênção, como diria alguém especial) de criar um filho, vida da sua vida, sangue do seu sangue, não é para qualquer um.
Nunca serei mãe, mas espero poder partilhar com alguém essa bênção de ter um filho e poder fazer parte da vida dele.

À minha mãe, fica um abraço e um muito obrigado. Espero um dia poder retribuir tudo o que fez por mim e ter a certeza de que, no dia em que não mais estiver fisicamente presente entre nós, tenha ido em paz.

5 comentários:

ÉRICA MARIN disse...

Os textos sobre nossas mães saem fácil, não é? Talvez pela simples emoção que nos dão, as linhas se fazem facilmente. Linda recordação a sua! Momentos como esse, parecem banais aos olhos de outros, mas só nós mesmos sabemos o verdadeiro significado...
Parabéns à sua, à minha e à todas as mães do mundo!

Daniela disse...

ficou lindo o texto!
o que mais me emocionou foi a lembrança da cor vermelha que atrai os bois. como vc já deve saber, eu fui criada na roça, numa fazenda, e também cresci ouvindo isso e tinha muito medo do touro.

ps: um touro já correu atrás de mim também, e eu nem estava de vermelho ;-)))

bjs

Priscila disse...

Eu estava devendo nehhh
Eh fazia um tempinho que eu não passava por aqui mas gostei muito da sua história.
Às vezes a gente não dá a devida importancia as pessoas que estão conosco presentes em todos os momentos mas é sempre bom lembrar delas e falar delas, porque fazem elas se sentirem especiais.

Bjusss

Déia disse...

Me emocionei com seu texto, aliás textos sobre mãe sempre me emocionam!
Que maravilha que existam famílias que resistem, isso dá uma força e uma esperança pra gente!
Parabens a vc pela mãe que tem e principalmente a ela, por ter conseguido passar pra vc valores dignos,e vc se tornado essa pessoa que é hoje!
Torço pro seu sonho se realizar! Vc será um ótimo pai!

Hiromiiii^^ disse...

Gaaaaaaaab....riel!!!
Hey, devemos muito as nossas maes... certamente...
Precisamos compartilhar mais momentos como elas... fiquei pensando aqui... que os momentos com minha mae de lazer... sao de infancia... e o agora? se resume a festas de familia, natal e ano novo...
Quanto mais velha fico, mais vejo como a minha mae nao eh uma heroina, mas o quao humana ela eh... e o quao mais proxima sinto dela.

Ao instinto materno!!!

Beijao