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domingo, 31 de maio de 2009

Dividir unifica

Esse ano tem sido excepcional. Estamos ainda em maio e já fui convidado para duas festas de 15 anos. A proporção é maior agora do que era quando ainda tinha essa idade. Lembro que no colégio ser convidado para uma festa dessas era um símbolo de status. Era como ser reconhecido como conhecido da garota bonita que pertencia ao grupo descolado.

É interessante como os convites de festas de 15 anos são escritos, atribuindo ares de importância a todos os convidados. Há variações, mas que pouco se distanciam do padrão. "Nessa noite especial quero dividir minha felicidade com pessoas especiais, e você é uma delas".
Nunca me esqueci de um convite rosa que me deram, que tinha uma citação de Nietzsche. Meu amigo, 16 anos na época, leitor interessado dos pensadores da filosofia, bem observou: "Se ela entendesse Nietzsche, nem faria festa". Para aparentar intelectualidade, concordei silenciosamente com sua observação. Eu fingi entender de Nietzsche e ele fingiu ter acreditado em mim.

À parte os comentários maldosos durante a festa (seja acerca dos convidados, ou dos salgadinhos, ou de comportamentos isolados de crianças), momentos como esses são bastante especiais. O cerimonial engessado de uma festa de 15 anos, com uma série de regras e protocolos a seguir, leva os presentes a refletirem sobre o que têm feito de suas vidas. Os 15 casais que entram, a sessão de fotos da infância, a valsa com o pai, com o tio, com o avô e com o príncipe, e as homenagens que se seguem me induziram a pensar sobre o passado e sobre o futuro, sobre o que passou e sobre o que eu acho que vai passar.

Será que terei uma filha, para poder dançar uma valsa de 15 anos com ela?

Imediatamente me coloquei no lugar do pai, na sua felicidade de ver aquelas fotos de quando sua filha aprendeu a andar de bicicleta, de quando ela comia com babador, de quando ela ia na piscina de bolinhas.
E, súbita e estranhamente, toda aquela situação me provocou, ao mesmo tempo, alegria e tristeza. Alegria por aquela família, que vivia um momento feliz, livre de tensões e fardos. Tristeza por algo que falho em identificar, como um sentimento de que aquilo não fosse acontecer comigo.

Tenho pensado muito em família ultimamente, muito em companheirismo, compania (talvez as palavras de meu avô tenham realmente surtido algum efeito). Não sei exatamente o que se passa, nunca fui de querer dividir muito minhas idéias guardadas na cabeça, nunca fui de admitir que precisava de outras pessoas. Mas, de súbito, enxerguei o "outro" e nele vi a figura com quem desejo dividir aquilo que penso. Um "outro" ora distante, ora próximo, ora aberto, ora codificado, hermético, indecifrável. Dele pouco entendo, mas muito dele espero.

(...)

Acho que a importância do outro reside no fato de ser com ele que dividimos aquilo que desesperadamente desejamos dividir, aquilo que necessitamos dividir.
Dividir a dor, e não fazê-la cessar. Dividir a alegria, enquanto esta durar. Dividir o prazer do corpo e dele não ter vergonha. Dividir as angústias, as tristezas, as obrigações, os objetivos, as vitórias e as derrotas.
Dividir as expectativas. Dividir as vontades.

Dividindo, aquilo que é separado torna-se uno, absoluto.

12 comentários:

Dani disse...

Oi Gabriel !
Obrigada pela sua mensagem no meu blog!Agora vou comentar seu texto anterior e esse aqui ;-)
Esse seu texto está muito bonito tb e retoma esse tema do quanto o outro é importante na nossa vida, eu sempre tive essa noção, sabe?Mas nesses dois últimos anos, quando perdi minha avó que era super companheira, e meu pai, que era uma das pessoas que mais amei na vida, (talvez a que mais amei), essa visão está muito mais amplificada e me faz refletir ainda mais.
Ainda bem que não sou a única e tive a sorte de encontrar em seu blog esses textos maravilhosos com os quais me identifico tanto.
Quanto à sua suspeita de que não fará uma festa de 15 anos para a sua filha, não é o único também,pois é, amigo, talvez tenhamos que ver a beleza de outras coisas e viver outras situações de alegria.
Um grande beijo,
Dani

dani disse...

lindo texto! e o blog é uma forma de dividir tudo isso, né

biz!

Déia disse...

Gabriel, lindo seu texto.
Eu não fiz festa de 15 anos, na época, achava bobeira e preferi viajar! Hoje me arrependo, pois posso viajar com qualquer idade, mas não dá pra fazer festa de 15 anos tendo 20, 25, 30 quando esses "ritos de passagem" passam a ter valor!
Tudo tem sua hora, conforme vamos amadurecendo, nossos pensamentos também amadurecem, mudam...
Tenho certeza que se vc quiser ter uma filha, você terá, afinal, o mundo tem muita gente interessante e logo encontrará alguem para dividir suas emoções, inclusive a de ser pai!
Seu blog ja mostra um ótimo começo da aprendizagem de dividir as emoções e eu só tenho a te agradecer!
bjs e boa semana!

Liciane disse...

Lindo texto! Ter com quem dividir a nossa vida é maravilhoso e não tem preço. Bjsss

Milena Candido disse...

Nossa! adorei o seu texto. Eu fiz uma festa de 15 anos, mas não estas tradicionais de danças... valsas... mas foi super bacana e o melhor... de ter os amigos por perto!!! Beijos

maria silvia disse...

Muito bonito!
Adoro seus textos... e a capacidade que tem de escrever com tanta sinceridade e generosidade! A poesia é consequência!
Beijo!
MARIA SILVIA

Déia disse...

Gabriel..sem palavras pra agradecer seu comentário lá no meu blog.
De coração, obrigada!
bjs

DaNiTaMiE disse...

Certo dia vc descobre, que o que importa, eh estar perto de quem vc gosta e de quem gosta e quer o melhor para vc...

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Belíssimo mesmo!
Beijos nossos,

Dolle disse...

Tava aqui precisando ler alguma coisa que fizesse sentido pra mim e lembrei que fazia um tempinho que eu nao vinha no seu blog... ainda bem que lembrei!
Gosto muito dos seus textos, de verdade!
Beijoos

Hiromiiii^^ disse...

Família é tudo que temos e com quem tudo compartilhamos... o mais assustador é pensar que se um dia deixar essa que tanto divido minha vida vou conseguir uma que me acolha com o mesmo conforto e segurança.

Entender as pessoas é impossível, mas querer tentar é um gesto de carinho à pessoa indecifrável e, ao mesmo tempo, perturbador à pessoa que tenta.
Eu adoro entender as pessoas, porque é uma forma de dizer que elas são importantes.

E definir as pessoas importantes... não sei... apenas sinto que são!

Beijão

Sil disse...

Gabriel,
Adorei seu Blog. e amei seu coments lá no meu Blog.
Thanks!
Bjs
Sil
www.depoisdodiva.blogspot.com